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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Resenha de Filme: Sonhos de Akira Kurosawa



Oito episódios de cinema, oito histórias compõem um dos últimos filmes do cineasta. Já era festejadíssimo, Hollywood tinha lhe dado um Oscar por conjunto de carreira e o filme é produzido por Spielberg.

Sonhos nem sempre têm final e seu ritmo é irregular. O mesmo nos episódios. Destaco alguns. No primeiro, um menino vê um casamento de raposas em dia de sol com chuva – mostra que o dito sol e chuva, casamento de raposas é universal. Serve de capa para o filme e é de grande beleza plástica, lembrando o pintor que o cineasta queria ser.

Mais interessante é o episódio O Túnel. Um antigo comandante tenta convencer a seus soldados que eles estão mortos. Interessante a falta de reações estereotipadas – os soldados fantasmas não assombram, não tentar vingar-se nem odeiam. Apenas melancolizam.

Dois episódios deixam clara a preocupação ecológica, especialmente quanto a catástrofes em usinas nucleares – O Diabo chorando e Monte Fuji em vermelho. O primeiro não deixa de ter certa influência da visão do Inferno de Dante. O diabo é patético, quase tanto quanto o ser humano. Note-se a presença de problemas de agora – o diabo quando humano costumava jogar leite e batatas fora para aumentar os preços. O segundo prefigurou o desastre de Fukushima – a pequena ilha japonesa tomada pela radiação, sem saída para seus habitantes.

O último episódio resume o pensamento do autor sobre a vida – A Vila dos Moinhos de Água. A vida valendo por si mesma, o passar dos anos, de maneira honrada e laboriosa, já sendo em si um grande mérito. São os pensamentos de um idoso a um visitante.

Impressiona na obra de Kurosawa a falta do amor romântico. Mal existe, talvez apenas no rápido romance do samurai jovem com a camponesa em Os Sete Samurais. Os grandes sentidos da vida não passam em primeiro lugar pelo romantismo. Por outro lado, há uma preocupação com o comunitário. A solução do burocrata condenado de Viver (1952) não foi se apaixonar – ele se dedicou à sociedade. Talvez algo a ensinar ao individualismo do Ocidente, que no máximo se estende em uma comunidade de dois. Não uma solução a dois, mas a muitos, pode ser a saída.

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