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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Resenha de filme: Sherlock Holmes 2



Arthur Conan Doyle formou-se médico, não tinha muita clientela, lia devoradoramente e sabia escrever. Na época todos era meio ateuzinhos, o poder da ciência estava em alta, o misticismo em baixa, a ciência e a tecnologia tudo podiam – era o que se acreditava. As teorias novas – marxismo, psicanálise - faziam questão de se apresentarem científicas – o que quer que isso fosse. Tirou também do escritor estadunidense Edgar Allan Poe os métodos e vaidosismos do detetive Arsène Lupin. Juntou a isso a sua própria genialidade e resultou daí a história de outro médico que se tornou amigo e cão de companhia de um detetive particular cheio de ironias e gênio, Dr, John Watson e Sherlock Holmes, a ciência contra o crime, ou o cérebro desvelando o mistério.

Os roteiristas da franquia Sherlock Holmes leram e não entenderam, ou não quiseram entender, ou o que importa. Se Sherlock e Watson tivessem sido e fossem vivos, poderiam processar este filme por falsidade ideológica. Em Sherlock Holmes 2, saem Sherlock e Watson e entra... bem, entra Chuck Norris, Rambo, Máquinas Mortíferas, filmes de ação sem nome (que importa), tudo passado em um liquidificador roteirístico e o resultado é um filme em que, por mais que se aconteça, fica a sensação de que não acontece nada. Sabe-se que, a cada dez minutos, vai ter uma cena de mais uns dez minutos de pancada-murro-correria-tiro. As cenas ditas tranquilas não poderiam estar mais longe dos contos policiais do oftalmologista vitoriano Conan Doyle. Não temos tempo de estranhar o detalhe bizarro, a frase a princípio sem sentido, a sutil pista aparentemente óbvia em um sentido mas que na verdade aponta para outro, o arguto trabalho de campo do detetive. Não temos tempo de tentar achar uma solução nossa para o mistério, mesmo porque mal dá tempo de haver mistério – tudo sufocado nesta correria de cenas chamadas de ação.

E na vontade de nos fornecer essas ditas, os roteiristas caem para o cômico. Não havia – simplesmente não havia – metralhadoras portáteis daquela eficiência em 1891, a data da história. Elas só surgiriam nos anos 1930, e foram imortalizadas nos filmes de gângster. Um canhão de umas 15 polegadas é usado para atirar no grupo de Holmes, que corria. Esses canhões não são feitos para pegar alvos próximos. Tinham um alcance de uns vinte ou trinta quilômetros, na verdade eles nem podiam ficar em linha horizontal – sua mira era sempre para cima. E a guarnição alemã que atira nos heróis estava com toda uma munição de guerra já prontíssima para atirar – nem parecia uma simples guarda de fábrica. Antes, acontecem explosões por granada e rajadas de metralhadora em um trem – e o mesmo continua rodando normalmente, nada aconteceu. Claro, isso acontece em qualquer viagem de trem – o que talvez explique porque o governo brasileiro tomou a discutidíssima decisão de desprezá-los em favor das rodovias.

Isso me assusta – o filme é feito para assustar e inundar de adrenalina, como todo filme hollywoodiano, parece uma lei – mas o que me assusta é que esses filmes parecem ser pensados assim: susto, tiro, bem-contra-mal, adrenalina, mulher bonita, correria, final feliz e apontando para a continuação. Os donos dessas franquias parecem nos achar tolos. Ou eles são tolos. Ou todos somos, ou eles acham, ou não – isso é um enigma para Sherlock e Watson resolverem – os verdadeiros, elementar.

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