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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Resenha de filme: Reis e Ratos, de Mauro Lima

Reis e Ratos consiste em três desperdícios.

O filme não é ruim. Só desperdiça:

a) O título. Meu reino por um título, poder-se-ia parodiar o rei Ricardo III. Só que esse título era digno de uma balada existencial à la Akira Kurosawa ou alguma produção inspirada em Shakespeare. É uma pena utilizá-lo em um filme que se autodefine despretensioso, e é;

b) O tema. Enfocar o Brasil pré-golpe de uma forma humorística é brilhante. Principalmente a escura atuação dos EUA nesse sentido;

c) O elemento do acaso. Seguidos planos de uma trama golpista são desvendados involuntariamente por um locutor médium, que denuncia os fatos antes que aconteçam. O acaso ter consequências grandes dá sempre margem para boa trama.

Que não se desenvolve. Reis e Ratos parece um filme feito para o ego de Selton Mello, com sua interpretação forçadíssima – parece que era esse o propósito. Como fala rápido demais, e contando com o som menos-que-perfeito de nossas salas de cinema, nem sempre se pode entender o que fala.

A trama rapidece demais, principalmente no último quarto. Os cortes são quase instantâneos, quando se pensa que todas as pontas soltas do início se unirão em um eixo narrativo só - elas continuam soltas. A transformação que o locutor sofre, de médium para espadachim e arqueiro, queda forçada.

A trama: Troy Sommerset é um agente da CIA que quer ficar no Brasil. Quer derrubar o presidente, com a ajuda de um oficial da aeronáutica. Para isso tramam uma série de golpes, que são desvendados pelo médium já mencionado.

Observe-se que, talvez por medo dos onipresentes processos, o filme não menciona o nome João Goulart, e quando representa o presidente, coloca um ator completamente diferente do próprio.

E quando a trama parece estar longe de terminar, ela termina. O golpe militar parece o deus ex machina das tragédias gregas, lembrando que se tratava de um deus que intervinha na trama e resolvia tudo. Tinha esse nome porque o ator vinha conduzido por cima em um cesto sustentado por uma balança, uma máquina, colocada atrás do palco. A história termina sem terminar. Há boas piadas, boas mas fica a sensação: que raio que foi que aconteceu mesmo?

De resto, melhor Reis e Ratos que 90% do lixo hollywoodiano.

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