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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Como o Papa ajudou Steve Jobs



No começo dos anos 60, um australiano chamado Morris West numa pesquisa destrinchou as entranhas burocráticas do Vaticano. Disso veio seu super-best-seller As Sandálias do Pescador, que originou filme com os inesquecíveis Anthony Quinn e Vittorio de Sica.

Obra de ficção, claro, mas que refletia os tempos. Era a época de João XXIII, aggiornamento, renovação, liberdade, a dinossáurica estrutura eclesial esfregando os olhos e estremunhando saindo do sono. Por isso, Kiril, o Papa fictício do livro e do filme, personificava um homem interessado em mim e em você, nas nossas necessidades físicas e não físicas de onde viver e como realizar nossos potenciais. Um líder relativamente pouco interessado em padres e mais interessado no mundo todo. Na época, a explosão de mudança: missa que as pessoas entendiam, teologias libertadoras, fim do excesso de pompa.

A partir de fins dos 60, e se acentuando depois da eleição de um desconhecido polonês e chegando ao paroxismo no meio do seu reinado, e se petrificando no sucessor, o Papa esclareceu, bem, não era nada daquilo. A Igreja estava interessada era nela mesma. Necessidades reais de pão e participação dos não-padres, bem, era outro departamento. A Igreja tem certos assuntos imutáveis – quase todos ligados a acordos objetivando dar regalias à Igreja e também à regulação da atividade sexual dos não-padres – a quase totalidade do que o Papa fala se refere a esses dois assuntos.

Steve Jobs, méritos teve. Criou suas engenhocas, passou na frente de outros na corrida, bombardeou as pessoas com mensagens de que elas não poderiam mais viver sem gastar parte do seu dinheiro com aquilo que ele vendia – é o que se chama marketing – e sua conta bancária decididamente não sofreu com isso. Um cara inteligente, sem dúvida, e esperto, muito mais. E morreu precocemente, o que gera uma justa simpatia.

Mas dai até chamá-lo guia, mestre, luz, profeta, visionário, só se explica pela absoluta falta de concorrência. Concorrência de ídolos. Vejam, os políticos são poderosos mas são mais liderados que líderes. Os Lulas e Obamas da vida especializaram-se em verificar cuidadosamente quem é o mais forte em cada questão e inclinar-se para o lado dele. Vou enfrentar interesses é algo que nunca dizem, e quando dizem é porque são os interesses da parte mais fraca. Seus discursos sinuosos, ninguém lhes dá importância – são contratos de empresa telefônica, sempre dão brecha para enganar o cliente. Suas ações podem até às vezes agradar a quem tem pouco, mas nunca desagradam a quem tem muito.

Os assuntos chamados globais dominam desde os anos 90. Não podem ser resolvidos por um ou poucos países – são todos ou quase todos, ou nada – fome, concentração de renda, desarmamento, poluição, aquecimento global, pandemias, liberdade na internet. Assuntos globais demandariam um líder global – alguém cheio de moral que colocasse o dedo no nariz do lado agressor em cada questão e gritasse – Você está errado! Ou alguém prestigiado para ser o líder e mediador no choque de países – alguém que poderia ter salvo muitas vidas nas revoltas do Oriente Médio. Alguém que berrasse para o país mais poderoso que Vocês não têm o direto de matar prisioneiros desarmados, quem quer que sejam. Que pudesse mediar as (quase) impossíveis negociações contra poluição.

O Papa católico seria o candidato natural. Mas... João Paulo II e Bento XVI são pessoas pequenas para essa tarefa. Homens de interesses restritos, missas em latim e controle de virgindades parecem ser o máximo de seu horizonte.

E por isso salve Steve Jobs, o profeta, até por não ter concorrência.

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