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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Aline Barros e o Padre Fábio nos sexoinfantilizaram


Freud não explica, ou ao menos pediria um bocado de grana antes de explicar. A civilização ocidental veio ao menos de dois povos. Os gregos, alegres, artísticos e pragmáticos (inventaram o teatro e a bilheteria), filosóficos, sanguinários (leia-se a Guerra de Tróia), comerciantes, espalharam feitorias por todo lado e lucraram muitas moedas. À parte disso, davam muito valor à beleza física. Entre as grandes qualidades atribuídas ao dramaturgo Sófocles estava a que era belo.

De outro, os judeus. Duros, austeros, esmagados pelo olho de um Deus que tudo via, que mandava trucidar os inimigos e pedia um dia da semana, e todo o resto, para ele. Viviam em um semideserto, quase sempre em briga com vizinhos, a vida era dever, não festa. Não escreveram peças mas palavras sagradas e exigentes. Nada de valor às superficialidades do mundo como a beleza do corpo.

Por muito, a igreja cristã campeonou o aspecto judaico. Dura, a beleza era esvaziada pela lembrança de sua efemeridade. Seus heróis eram santos mais conhecidos por sua capacidade de enfrentar governantes romanos ou pisar em desertos que por uma cintura na medida ou um nariz no ponto certo.

Milagres da pós-modernidade e a Igreja muda. Saem os idosos padres, as cantoras de coral com voz de ópera mas boas reservas adiposas e entram e ronronam gatas e gatos.

O Padre Fábio é bonito, veste-se de forma a ressaltar sua beleza, tem um olhar calculado para a conquista e seu público (óbvio) – é essencialmente feminino. Pode entrar nisso a famosa e eterna busca do feminino pelo filho-de-rei encantado, e como só é encantado quem é inacessível, a busca por alguém institucionalmente impedido de unir-se pode ser uma forma sutil de ter um eternamente príncipe. Beleza e sensualidade para o Senhor – os gregos dando a última gargalhada, parece.

Aline Barros, o mesmo. A garota bonitinha com voz razoável, em tudo igual a muitas garotas bonitinhas com voz razoável, exceto por tudo ser para o Senhor – e por não tirar nunca os panos com os quais se cobre. Mais sutil, seu apelo sensual é tanto masculino quanto feminino – este para aquela admiração meio-inveja da mulher que se quer bonita para aquela que é apresentada como bonita. Assim como o reverendo, também é inacessível – a austeridade de boa-moça ao exponencial que só vive num pequeno mundo de igreja a faz distante como Sirius.

As crianças têm uma sexualidade, só que é diferente da dos adultos. Não são inocentes, como se diz, o quer que seja isso. Por ser diferente, é por isso que há leis que proíbem uma mistura da sexualidade adulta com a infantil. A primeira se caracteriza por chegar a um clímax. A segunda não. Priminhos no quintal brincando de médico não chegam lá.

O Padre Fábio e Aline Barros também não. Prometem, não cumprem. Seus gestos chamam, para o abraço, para o beijo, para o sei-lá-mais – mas não o fazem. Contradição: atrai-se por atrair, conquista-se só por conquistar. Não há um final.

Havia algo de podre em um certo reino nórdico, dizia um certo príncipe chato, e há algo de tenso nos espetáculos do Padre Fábio e de Aline Barros. Algo que parece ir mas não vai. Bem, talvez o propósito seja esse.

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