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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

100 - O Coronel se perde nas possibilidades

Preso em um gabinete por seus soldados amotinados, esperando o resultado de seu julgamento popular, como os canhões do inimigo cada vez mais perto, o Coronel Sérgio Alexandrovitch Kovinev espera.

O meio-dia irrompe em meio a nuvens que prometem tempestade. Sentado em frente a uma escrivaninha negra, de três gavetas, sabe que nelas está seu futuro, que talvez seja nada.

Abre a primeira. Deposita-se lá uma fotografia de seus dezessete anos, uniforme da escola militar, sem namorada, vontade de agarrar o mundo.

Abre a segunda. Uma gravura de Vênus – e com ela a Ira de nunca tê-la conhecido.

Vem a Terceira. E nela não existe a pistola que esperava (um estratagema banal dos revoltosos para facilitar-lhe o fim). De fato, não há nada. Só um receio de que o Nada exista. Ou talvez nem isso.

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COM ESTA CENTÉSIMA NARRATIVA, ENCERRA-SE, NESTE BLOG, O PROJETO NARRATIVAS MULTILINEARES. GRATO A QUEM LEU.
Paulo Avelino

domingo, 30 de novembro de 2014

099 - O Maluco Belo

O Maluco Belo dizia para termos coragem. [Dizia também para termos coerência entre querer, pensar e fazer – embora coerência fosse o que não se encontrava entre suas belas palavras e roupas malamanhadas]. Um Ensaio sem título específico e sem indicação de autor, com capa vermelho-esmaecida e uma menção a Toulouse, 1914, imortalizou [palavra que ele mesmo rejeitaria] Raullón, cognominado [sem muita razão efetiva] O Maluco.

Sabe-se que há um registro [razoavelmente seguro] dele no ano 1323; que aparecia sempre pelos fins de manhã na feira em volta do Caminho do Touro; que tinha por volta de cinquenta anos [sendo que os testemunhos de que tinha A Idade das Pedras foram (não sem razão) considerados por demais poéticos; e que quando vinha as possíveis nuvens de tempestade se dissipavam [o que também tem sido posto em dúvida]. Falava [não pregava] como quem brincava com bolinhas de sabão.

As [inevitáveis] interpretações o compararam a uma Maria de sexo trocado, sempre disposta a sacrificar-se pelo mais insignificante ser; [esperáveis] semi-detratores afirmavam que sua vida consistiu numa hercúlea batalha contra um desejo que o roía, aquele da desgraça alheia.

Infensa a interpretações extremistas, a verdade pode afirmar que o Maluco Belo, pregador medieval do Sul da atual França, não se inspirava por excesso de bem ou de seu oposto, mas por um sendo de expectativa – do que vai acontecer, sendo este comum a todos os humanos. Tal explicação [óbvio] também tem seus contestadores.

sábado, 29 de novembro de 2014

098 - O ilógico relógio Kashmir

Os relógios precedem Descartes. [Seria (no entanto) exagerado dizer (como querem alguns) que o grande relógio de Kashmir precede todo o Tempo – pois o mesmo só existe desde anos 700 ou 800, segundo as menos piores estimativas]. Dele restava apenas [em 1899, quando sobre ele se falou pela última vez] uma pintura [de detalhes (quase) criminosamente explícitos e uma (esmaecida) cor verde, apesar da neve que, de maneira pouco esperável, o circundava].

Único no mundo, o relógio de Kashmir não tinha números – de fato, os períodos passados se dividiam em pequeno período, grande salto e você está depois do tempo [este último de interpretação assaz complexa].

O povo que se regulava por ele [o talvez mítico povo Kashmir] o temia mais que respeitava – de fato, o passar dos ponteiros os enchia de um terror cuja explicação desafia antropólogos. [Sendo que a melhor versão, talvez incorreta, era de que se sentiam criticados, não pelo tempo que desperdiçavam, como os ocidentais, mas pelo que aproveitavam – o que quer que isso quisesse dizer].

De fato o grande relógio [que não era (em verdade) assim tão grande] assumia o papel de um conjurador que trazia as coisas da vida, abundantemente, sem nenhuma avareza, até as desgraças – como um Édipo de peças de metal e sem nenhum esforço para evitar gregas tragédias. 

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

097 - Larry o Bibliófilo

De todas as explicações sobre Larry Grossmann, a mais popular é provavelmente a mais tola: sua vida como um romance sem graça, passado dentro de janelas de Stanford ou de Harvard [um esportivo sol das onze da manhã lá fora], enquanto lá dentro o rapaz perdia uma pretensa juventude entre livros da Biblioteca. [E tal alienação não seria só física mas histórica: era 1915 e rugia a guerra – mas isso importava menos que certo incunábulo de capa salmão].

A esta imagem [que se ressente de algum idealismo] contrapõe-se uma realidade menos adocicada: Larry [de quem a história pouco guarda além do nome] não era tão jovem [sendo (no entanto) exageradas as versões de que parecia tão velho que semelhava viver depois da própria vida]. Seu amor pelos livros não era o de um Apolo – um desinteressado pela chamada realidade e por tudo o que não fossem palavras em tinta.

De fato, seu amor por letras não vinha [como trauteiam os detratores] de uma repulsa [mesclada de desejo tímido] pelas mulheres. E nem [como sonham os inevitáveis apologistas] de uma excessiva generosidade que o fazia sacrificar o contato com gente pelos estudos para melhorar o Mundo. A versão do meio [geral e banalmente a mais correta] afirma que sua rejeição do mundo resultava de uma expectativa que o perseguia sempre – nem sempre por algo melhor - mas tampouco para seu contrário.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

096 - O frio fim do Reino de Khazyr

Tal título [que poderia ser o de um romance de qualidade não exatamente excessiva] marca um fato [suposta e (segundo os detratores) mitologicamente] real: a destruição do Reino de Khazyr, em algum lugar entre o Mar Cáspio e o lago Balkash, lá pelo ano 300 ou 500 d.C. [Uma única menção no terceiro capítulo do Colapso de Jared Diamond não é suficiente para calar os que acreditam na inexistência de tal país].

Pescadores de salmão, os khazirianos cochilavam longos períodos do dia, seus sábios eram tão velhos que pareciam viver depois do seu próprio tempo de vida, suas divindades mais vis e mais louvadas eram femininas [com os homens a ficar com a mediania] e um vento plácido percorria suas terras.

Inevitavelmente desprezaram os alertas de que pescavam demais, dormiam demais e usavam demais as plantas para fazer suas tendas. A brisa se tornou ventania [tão lentamente que poucos notaram]. E mais que isso, gelou. Os alertas de que o frio espantariam os peixes foram ridicularizados.

Depois de seu desaparecimento [esperavelmente] sobraram explicações. Os Khazyr teriam sofrido por seu excesso de generosidade – mesmo sabendo que pescavam demais, queria ver todos comendo muito e felizes. Marias em forma de povo, pensavam no outro, não em si.

Outra razão [menos honrosa] aponta para a indiferença – sabiam que corriam ao fundo, mas [conscientemente] não ligavam. Por sua semelhança com situações posteriores, tal explicação não bate recordes de popularidade.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

095 - Da Prematura Velhice dos Povos

O Ensaio Da Prematura Velhice dos Povos na verdade consistia numa foto – publicada em inverossímeis tons azuis (foscos de fim de manhã) na capa do Le Petit Parisien naquele bem pouco conveniente primeiro de setembro de 1939 – o dia em que os panzers rolaram sobre a Polônia. Representava uma colina [iniciada por um berço e terminada em um túmulo] a qual os povos supostamente deveriam subir e descer.

Um povo [convenientemente sem nome] percorria o tal caminho, representado por um idoso tão idoso que parecia viver depois do tempo. Nuvens de tempestade [mas de aspecto (curiosamente) pouco ameaçador decoravam o horizonte]. Édipo sem tragédia, percorria seu caminho com uma indiferença tão profunda que ultrapassava a nonchalance da maior fatia dos indiferentes.

Interpretações [como sempre] pulularam. O velho [o povo, na verdade todos os povos] desejava mais a desgraça dos outros que a própria ventura. Acima do progresso, movia-o a inveja [o que abriu uma pouco produtiva discussão sobre onde principiava uma e terminava a outra].

A principal polêmica [no entanto] consistiu em afirmar que o autor daquela fotografia fora na verdade Oswald Spengler – embora o profeta da decadência inelutável das civilizações já estivesse então morto havia já bons três anos – mas isso em nada impediu os polemistas.

domingo, 23 de novembro de 2014

094 - Sem Discurso e sem Método

O improvável nome de Rehmahn Karamchuk abrigava o homem que [dizem] precedeu o método cartesiano em cerca de mil anos. Habitante de país esquecido da Ásia Central, o sábio sobrevive [além de pedaços de tiras de pergaminho] em três pinturas de inusitado tom sépia quase vermelho [de fato apenas uma, estando as demais quase indistinguíveis].

Inevitáveis lendas cercam sua vida: de que escreveu sua obra em apenas três horas [algo fisicamente impossível]; de que suas noções básicas já estavam em sua grandiosa mente antes mesmo dele nascer; de que sua tendência ao estudo se devia a uma repelência a mulheres [com outra corrente afirmando o oposto – que colecionava amantes]; e que, quando meditava, caía neve sobre sua cabeça [um detalhe que não deixa de ter ares de comicidade].

De fato, esse pouco conhecido quase-profeta [espécie de Tirésias sem deuses para aturar] sofria de uma vontade de devorar o mundo – se não com os dentes [o que com improvável surpresa verificou ser impossível] com o conhecimento.

Não o fez [no entanto] com os chatíssimos silogismos que caracterizaram seu sucessor – e sim com uma aceitação do mundo comum é – como caos, balbúrdia que pode ser vista como ordem, pois as tentativas de pôr nele ordem apenas concluem por acrescentar mais balbúrdia ao que era confuso. Descartes o admirava e [no fundo] se remoía por seu inspirador ter compreendido o universo bem melhor que ele – embora tal versão não seja isenta de opositores.