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domingo, 27 de julho de 2014

050 - A História em começo

As Histórias sem fim abundam pelo Universo [de fato, os filmes e revistas de cores as popularizaram]. Das histórias sem começo [por outro lado] pouco se fala. Uma delas [constante em certa tradução das 1001 Noites, de Burton (e que depois se descobriu falsa)] refere-se [sem surpresa] a um Mundo [ou melhor, um Tudo] completamente branco, antes do tempo. [Como seria de esperar] A história [a qual tem sete nomes, uma forma delicada de dizer que não tem nenhum] começa sem começo – na verdade no seu meio: uma menina caminha fora de casa antes do sol nascer [uma situação assustadora típica dos contos de fada]. Uma [esperabilíssima] neblina a envolve – uma maneira mais que óbvia de representar o medo do futuro.

A menina inocente [e todas as meninas inocentes (de outra ou uma forma) seguem o arquétipo de Maria] caminha, e caminha – encontra pescadoras, moleiros e até uma fada - sem que nenhum deles lhe represente uma real surpresa. [De fato, o único momento mais chocante ocorre quando uma preguiça sem dentes lhe adverte dos perigos da Gula (admoestação no mínimo curiosa já que a garota, em toda a história, não põe nada na boca)]. O enredo [obviamente] apenas cessa, sem fecho.

Críticos afirmam ser tal história uma metáfora da vida e sua eterna continuidade desprovida de sentido. Críticos dos críticos afirmam que tal interpretação apenas nobilita uma lendazinha boba.

sábado, 26 de julho de 2014

049 - Página-Dupla Garota

O [tolo] grupo pop-rock J. Geils Band [dizem – embora com pouca ou nenhuma fonte] baseou-se para fazer sua [não menos tola] canção Centerfold em uma fotografia.

Pertencia ao primo do líder do conjunto e na verdade [afirma quem a viu] não tinha nada de especial – exceto a imagem de uma jovem [cabelos rentes típicos dos anos 1960], um chapéu cor laranja, uma inevitável tarde ensolarada a entrar pela janela e uma atmosfera geral de laziness que dava à [sem dúvida atraente] garota o ar de uma Vênus com um [não desprezível] toque de indiferença.

Tal [decididamente] não ocorre no clip oficial da música [não o menos visitado no Youtube] que apresenta [com uma previsibilidade só comparável ao seu sentido do banal] garotas louras [embora algumas morenas] de levíssimos negligées. Na parte mais  lamentada da melodia, o cantor fala em levar sua antiga namoradinha [agora Garota da Página-Dupla] a um Motel – [tolamente] confundindo a falta de medida [presente na sensualidade e em muitas outras atividades humanas] com o sentido reprodutivo da espécie.

A   garota da foto [e sua quase (austera) falta de pudor e roupas] não compareceu como encarte no LP [de 1981] – apesar de rumores a respeito. Menos que por moralismo [do qual de resto dificilmente se pode acusar as bandas de rock] por certa [quase compreensível] hesitação diante da falta de vergonha – de fato, da falta de qualquer coisa que não a presença do corpo em si.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

048 - Apodrece o Verão

No seu absolutamente esquecível C´étaient les poilus! Eram os pracinhas! [na verdade um amontoado de frases que visa dar uma luz nova à batidíssima Primeira Guerra Mundial] Pierre Stéphany joga [talvez por acaso] a forte frase: a Chuva de um Verão Podre [p. 132, Ixelles, 2014].

Mais banal do que possa parecer, a frase se refere às condições [tétricas] nas quais os generais [sempre eles] jogaram ondas e ondas de soldados em uma carniceira que os historiadores dignificaram como o nome de Batalha do Somme.

Forte que seja, não prima por ser original. De fato a primeira versão do Im Westen nichts neues [que ganhou o ruliúdiano nome de All Quiet on the Western Front] tem [quase exatamente] o mesmo título: Chove em um Verão Podre.

A História [absolutamente familiar para quem já leu um livro sobre as trincheiras] tem um pouco de originalidade na sua luz que semelha eterna noite [na verdade uma estranha luz violeta], além de uma [pouco menos que irritante] calmaria no ar: nem uma folha se dobra. No mais, as mesmas histórias de jovens [com um (compreensível) medo do futuro] que se criam deuses da firmeza [tipo Thor] convictos de uma suposta razão e que [depois de muitas balas, muitas covas e alguma culpa] se descobriam apenas jovens, e com medo.

A primeira rodagem do filme [compreensivelmente] não veio a lume. Os produtores preferiram uma versão adocicada – que afinal não mudou muita coisa. Desgraçadamente, a bela frase se perdeu.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

047 - Vênus-ianas

Cleópatra [dizem] não era essas coisas todas. Nem mesmo Messalina, Lucrécia Bórgia ou Afrodite [esta atrapalhada pelo fato de ser mitológica]. Os videntes e os moralistas [duas categorias que não se destacam por sua credibilidade] afirmam que todas as devassas do mundo se inspiraram em uma só – um ser diafanamente construído antes do tempo [sendo isso quase todo o pouco que dele se sabe].

Um profeta [sapiente ou maluco] jura ter visto a gula em forma de pintura [uma estranha pintura com detalhes em inevitável cor-de-rosa]: gula pois a devassidão não passa de uma forma excessiva de devorar sensações. Tal obra de arte [da qual (convenientemente) não sobraram vestígios] mostra uma mulher atraente mas de idade indefinida [alguns (com algum drama) afirmaram que ela contém no semblante os encantos de todas as idades]. Em um banal fim-de-manhã, entre [previsíveis] nuvens de tempestade, a mulher mostra certo ceticismo – para a maioria, desencanto.

O que desencadeou as costumeiríssimas críticas: este só poderia ser o fruto do Império das Paixões – o vazio [o que quer que seja isso] e o retorno a... e neste ponto as opiniões se dividem, desde Zeus a Vishnu.

Uma interpretação mais cínica [e talvez mais consistente com o sucesso histórico das ilustras damas mencionadas] seria que o semblante representa só o nada – ou então uma reflexão sobre como continuar a busca pelos prazeres desmedidos – explicação esta que pouco sucesso obteve.

013 – Controle Administrativo sobre o Futebol

O Senador Álvaro Dias propõe que a Confederação Brasileira de Futebol – CBF seja fiscalizada pelo Tribunal de Contas da União. Assim como as federações estaduais o sejam pelos tribunais de contas dos estados.

A oportunidade não podia ser melhor: protocolou o projeto de lei n. 221/2014 seis dias após a maior derrota da história do futebol brasileiro, de sete a um para a Alemanha, em uma Copa do Mundo, jogando em casa.

A Justificação do Projeto afirma que A trajetória de declínio do futebol brasileiro já foi anunciada há bastante tempo. Lembra também a importância econômica de tal esporte, e que consiste em patrimônio cultural do Brasil.

Pode-se intuir grande resistência. Tal rendoso esporte se encontra sob o controle de grupos que possuem um entendimento duplo: afirmam-se ser entes privados no tocante a fiscalizações, o que não impede de implicarem a gestão de volumosos recursos e interesses públicos, haja vista uma Copa de muitos bilhões.

Não se trata se proposição inédita. O Conselho de Estado francês julga as federações esportivas. A justificação é significativa: mais do que por mero aporte de recursos, estas são julgadas por serem pessoas privadas encarregadas de um serviço público. Esta talvez seja a melhor aproximação ao problema: não se reduzir a mera fiscalização de recursos, mas reconhecer que tal esporte envolve o interesse nacional, e portanto não pode ser deixado ao talante de um órgão privado.

Aguardemos a inevitável polêmica.


terça-feira, 22 de julho de 2014

046 - Volta ao Mundo em uma cesta de pão

Cosmas deu a volta em uma ilha e isso aconteceu em um ridículo crepúsculo rosa pelo ano 600 ou 650. Seu barco [levando o (na época) trintão e charmoso comerciante] mais dançava que navegava por oceanos sem nome, semelhante a um Tirésias sem modéstia. [Pois dizem (não sem malícia e alguma razão) que o audacioso egípcio buscava (além das moedas) a fama eterna].

Inevitáveis nuvens de tempestade o levaram para o largo de uma ilha, para onde [mais por lassidão que por instinto desbravador] seus marinheiros o deixaram vogar. Percebeu [não sem ser algo desiludido] que a tal terra descoberta não tinha flores [fora uns raminhos chochos] nem pássaros [exceto gaivotas magrelas]. De fato não tinha nada exceto uma montanha no seu centro, que se erguia em pináculo – e a curiosíssima característica da noite cair como lâmina, quase sem transição – e do dia surgir do mesmo jeito.

Depois de meses de tédio, o próprio tédio fez Cosmas descobrir o segredo, de tanto pensar. Aquela era montanha do Centro do Mundo. O sol dava voltas, não no Universo, mas nela. O fenômeno que conhecemos por Noite não existia – era apenas a ilusão causada pelo sol se escondendo atrás da montanha. [A mesma ilusão se dava no fenômeno que as gentes chamavam Dia].

Retornando ao Sinai, Cosmas [sem que se saiba por quê] tornou-se monge e dedicou o resto da vida a desenhar esquemas de como seria o Mundo. O que gerou não poucos risos, pois sua montanha sempre lembrava [a alguns engraçadinhos] uma grande cesta de pão.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

045 - O Terceiro Sonho

Asoka [o rei] apenas no seu Terceiro Sonho viu o Templo. [Dos dois primeiros não ficou registro]. Asoka sabia que havia órfãos e que havia viúvas. Decidiu [no entanto] rapar os cofres nacionais em um misto de Templo e Palácio – feito não para causar inveja aos deuses mas para deixá-los fulos de raiva [com o desperdício, dizem os eternos críticos].

Para evitar revoltas camponesas e punhais palacianos, o preclaro rei dourou a narrativa: segundo ele, no sonho real um deus [convenientemente semelhante ao próprio Asoka na sua barba e nos seus cinquenta anos] dançava [como todo bom ser mitológico do subcontinente indiano]. Mas não só: um tom laranja [não isento de estranheza] perpassava a atmosfera, impulsionada esta por um vendaval que fazia o tempo contrair-se e distender-se como os próprios movimentos do tal deus.

Procurando a serenidade [tal como seu contemporâneo Buda] Asoka pensou que [para compensar aquela dança sem medida] deveria utilizar todo o ouro e todo o bálsamo do reino para construir um Templo para si mesmo [e para os alegres empreiteiros da sua Corte]. A Indignação dos súditos [acreditava ele] seria silenciada pelo caráter divino da ideia].

Asoka não chegou a ver o templo concluído [morreu antes e o templo restou inconcluso, embora alguns cortesões tenham quedado ainda mais ricos]. Há quem creia [sem nenhuma base] que tal templo tenha inspirado o Taj Mahal. Mas isso [de novo] pode ser só consolo para o desperdício.