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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

097 - Larry o Bibliófilo

De todas as explicações sobre Larry Grossmann, a mais popular é provavelmente a mais tola: sua vida como um romance sem graça, passado dentro de janelas de Stanford ou de Harvard [um esportivo sol das onze da manhã lá fora], enquanto lá dentro o rapaz perdia uma pretensa juventude entre livros da Biblioteca. [E tal alienação não seria só física mas histórica: era 1915 e rugia a guerra – mas isso importava menos que certo incunábulo de capa salmão].

A esta imagem [que se ressente de algum idealismo] contrapõe-se uma realidade menos adocicada: Larry [de quem a história pouco guarda além do nome] não era tão jovem [sendo (no entanto) exageradas as versões de que parecia tão velho que semelhava viver depois da própria vida]. Seu amor pelos livros não era o de um Apolo – um desinteressado pela chamada realidade e por tudo o que não fossem palavras em tinta.

De fato, seu amor por letras não vinha [como trauteiam os detratores] de uma repulsa [mesclada de desejo tímido] pelas mulheres. E nem [como sonham os inevitáveis apologistas] de uma excessiva generosidade que o fazia sacrificar o contato com gente pelos estudos para melhorar o Mundo. A versão do meio [geral e banalmente a mais correta] afirma que sua rejeição do mundo resultava de uma expectativa que o perseguia sempre – nem sempre por algo melhor - mas tampouco para seu contrário.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

096 - O frio fim do Reino de Khazyr

Tal título [que poderia ser o de um romance de qualidade não exatamente excessiva] marca um fato [suposta e (segundo os detratores) mitologicamente] real: a destruição do Reino de Khazyr, em algum lugar entre o Mar Cáspio e o lago Balkash, lá pelo ano 300 ou 500 d.C. [Uma única menção no terceiro capítulo do Colapso de Jared Diamond não é suficiente para calar os que acreditam na inexistência de tal país].

Pescadores de salmão, os khazirianos cochilavam longos períodos do dia, seus sábios eram tão velhos que pareciam viver depois do seu próprio tempo de vida, suas divindades mais vis e mais louvadas eram femininas [com os homens a ficar com a mediania] e um vento plácido percorria suas terras.

Inevitavelmente desprezaram os alertas de que pescavam demais, dormiam demais e usavam demais as plantas para fazer suas tendas. A brisa se tornou ventania [tão lentamente que poucos notaram]. E mais que isso, gelou. Os alertas de que o frio espantariam os peixes foram ridicularizados.

Depois de seu desaparecimento [esperavelmente] sobraram explicações. Os Khazyr teriam sofrido por seu excesso de generosidade – mesmo sabendo que pescavam demais, queria ver todos comendo muito e felizes. Marias em forma de povo, pensavam no outro, não em si.

Outra razão [menos honrosa] aponta para a indiferença – sabiam que corriam ao fundo, mas [conscientemente] não ligavam. Por sua semelhança com situações posteriores, tal explicação não bate recordes de popularidade.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

095 - Da Prematura Velhice dos Povos

O Ensaio Da Prematura Velhice dos Povos na verdade consistia numa foto – publicada em inverossímeis tons azuis (foscos de fim de manhã) na capa do Le Petit Parisien naquele bem pouco conveniente primeiro de setembro de 1939 – o dia em que os panzers rolaram sobre a Polônia. Representava uma colina [iniciada por um berço e terminada em um túmulo] a qual os povos supostamente deveriam subir e descer.

Um povo [convenientemente sem nome] percorria o tal caminho, representado por um idoso tão idoso que parecia viver depois do tempo. Nuvens de tempestade [mas de aspecto (curiosamente) pouco ameaçador decoravam o horizonte]. Édipo sem tragédia, percorria seu caminho com uma indiferença tão profunda que ultrapassava a nonchalance da maior fatia dos indiferentes.

Interpretações [como sempre] pulularam. O velho [o povo, na verdade todos os povos] desejava mais a desgraça dos outros que a própria ventura. Acima do progresso, movia-o a inveja [o que abriu uma pouco produtiva discussão sobre onde principiava uma e terminava a outra].

A principal polêmica [no entanto] consistiu em afirmar que o autor daquela fotografia fora na verdade Oswald Spengler – embora o profeta da decadência inelutável das civilizações já estivesse então morto havia já bons três anos – mas isso em nada impediu os polemistas.

domingo, 23 de novembro de 2014

094 - Sem Discurso e sem Método

O improvável nome de Rehmahn Karamchuk abrigava o homem que [dizem] precedeu o método cartesiano em cerca de mil anos. Habitante de país esquecido da Ásia Central, o sábio sobrevive [além de pedaços de tiras de pergaminho] em três pinturas de inusitado tom sépia quase vermelho [de fato apenas uma, estando as demais quase indistinguíveis].

Inevitáveis lendas cercam sua vida: de que escreveu sua obra em apenas três horas [algo fisicamente impossível]; de que suas noções básicas já estavam em sua grandiosa mente antes mesmo dele nascer; de que sua tendência ao estudo se devia a uma repelência a mulheres [com outra corrente afirmando o oposto – que colecionava amantes]; e que, quando meditava, caía neve sobre sua cabeça [um detalhe que não deixa de ter ares de comicidade].

De fato, esse pouco conhecido quase-profeta [espécie de Tirésias sem deuses para aturar] sofria de uma vontade de devorar o mundo – se não com os dentes [o que com improvável surpresa verificou ser impossível] com o conhecimento.

Não o fez [no entanto] com os chatíssimos silogismos que caracterizaram seu sucessor – e sim com uma aceitação do mundo comum é – como caos, balbúrdia que pode ser vista como ordem, pois as tentativas de pôr nele ordem apenas concluem por acrescentar mais balbúrdia ao que era confuso. Descartes o admirava e [no fundo] se remoía por seu inspirador ter compreendido o universo bem melhor que ele – embora tal versão não seja isenta de opositores.

sábado, 22 de novembro de 2014

093 - Amhitar perde o bonde

Amhitar perde o bonde da história [de fato, quase todos os países o perdem]. Terra imaginária da Ásia Central [ou de um realismo maior que muitas nações] sua [pretensa] história é contada em sete, setecentos ou doze mil ensaios de capa verde [os números sempre variam]. As [surpreendentemente] poucas especulações sobre sua localização temporal consideram mais adequado situá-la depois do tempo.

Sobre o caráter nacional, pouco a dizer – o sol lancinante [que causa alucinações contumazes aos cidadãos, embora por pequenos períodos] leva o país a uma espécie de velhice prematura dos povos [uma frase não destituída de dramaticidade – digna de uma Antígona coletiva e sem charme, coisa da qual Amhitar tem sido acusada].

Interpretações [não isentas de crítica] consideram a existência concreta do país não como amontoado de terra, gente, proprietários e batalhas - mas como personificação coletiva [considerando-se que tal exista] de uma inveja que os povos têm das realizações uns dos outros; uma indignação por não cumprir suas próprias potencialidades e um consequente desejo que outros também não consigam fazer o que podem – uma vontade, se não nacional, muito humana.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

2014 11 19 - Resenha de Livro - Eva Perón, a biografia, de Alícia Dujovne Ortiz

Eva, a primeira mulher do Estado

ORTIZ, Alicia Dujovne. Eva Perón, la biografia. Buenos Aires: Suma de Letras Argentina, 2002. 510p.

Eva Duarte nasceu em 1919 em uma Argentina que, como ela, regurgitava de contradições. Pobre em um país de alta renda per capita, sem muita comida em uma sociedade que transbordava trigo e carne, discriminada em um Estado nominalmente democrático: escarneciam dela porque seus pais nunca se tinham casado. Viveria pouco mais de três décadas: curto tempo em que ela ajudaria a transformar a nação.

A jornalista argentina radicada na França Alícia Dujovne Ortiz procura equilibrar a narrativa de Eva mulher com a política, e quase sempre o consegue. Eva Duarte vem a Buenos Aires nos anos 30 em busca de sucesso. Capital que vivia a década infame, de regressão econômica e governos pouco efetivos, ao final dos quais algumas patentes do exército fãs do fascismo se uniram para mudar o estado de coisas, talvez pela força. Enquanto isso Eva canta e representa no rádio com sua voz pouco mais que medíocre.

Sua vida e a Argentina mudam quando o Grupo de Oficiais Unidos derruba o governo em 1943, e um coronel viúvo e boxeador chamado Juan Domingo Perón recebe o então pouco importante Ministério do Trabalho. Um evento de caridade une o militar e a atriz de segunda.

Eva, já então Perón, aos poucos percebe a força da máquina sindical. A Argentina se transformara: uma multidão vinda das províncias se acumulava na capital, onde prosperava uma indústria protegida pelas crises e guerras europeias. Mas não só Eva. Os oficiais do exército, assustados com seu Ministro, derrubam-no e o prendem. Pressionados pelos sindicatos, têm de soltá-lo. Ele fez o seu primeiro discurso importante e fundou o movimento que ainda hoje prevalece no segundo maior país do continente: o Peronismo.

Juan já eleito presidente, Eva se faz primeira-dama. Diferente das predecessoras, mistura-se com o povo. Atende os pobres, fala com eles, dá-lhes bolas de futebol, remédios contra urticária e vestidos. Em pouco não é mais Eva Perón: tornara-se Evita, a mãe dos descamisados, cuja vontade de poder só não era maior que a veneração por seu marido.

O livro descreve um Estado em desenvolvimento e mais do que isso, a criação de uma forma de ser Estado. O Peronismo representa uma forma de poder pelo contato direto entre o grande líder e os governados. Desconfia da mediação de sindicatos e partidos, mais manipulados pelo líder que propriamente respeitados. Evita representa plenamente esta tendência: seu contato é maternal, face-a-face. Claro que cobra um preço: a obra revela negócios bem pouco honrosos, inclusive com proteção de foragidos nazistas. Esse lado negativo foi esquecido: a morte prematura em 1952 congelou o sorriso de Evita no imaginário do povo.

Acusa-se o Papa Francisco de peronismo. Tem algum sentido: certo desvio da burocracia vaticana e os gestos diretos para a massa de fiéis lembram o movimento argentino. Se assim for, o peronismo de certa forma atingiu o mundo. Evita, a menina pobre tornada rica e protetora dos que permaneceram pobres, ajudou a fazer do peronismo aquilo que ele é.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

092 - Deus Chorão

Os deuses [dizem] não choram [embora certa divindade do Oriente Médio tenha vertido improváveis lágrimas de sangue]. Certo deus [no entanto] não chorava. Dele [de maneira pouco verossímil] consta uma fotografia [previsivelmente com defeitos químicos que pouco nela permitem distinguir]. De fato nada, exceto uma mancha [cujos toques futuristas parecem coloca-la fora do tempo] , mas cuja imprecisão lembra um ser sem forma, algum filhote antes de nascer.

De fato ao Deus Chorão [assim ficou conhecido] [ou a sua imagem] se atribui a propriedade de deixar alguns contempladores em mudo êxtase por um curto período. [Versões dizem que isso se deve a sugeridas nuvens de tempestade nas bordas da imagem, mas tal hipótese conta com escassos entusiastas]. O mesmo pouco sucesso persegue a ideia detratora de que certo sorriso [muito mais adivinhado que percebido] trai um desejo de que o outro sempre se dê mal. Já os apologistas pensam ver o mesmo repuxar labial, e nele percebem uma generosidade talvez exagerada sobre as mazelas do mundo.

Maria lacrimosa mas sem filho perseguido pelos Romanos, a [pouco provável] divindade parece representar o [muito humano] receio. De tudo. Daí sua imagem borrada e suas caretas que talvez sequer existam.