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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

2016 01 24 - O Veterano Detetive resolve o problema das licitações

Dia desses, eu, o Detetive Artemidoro Balsemão, dedicava-me a profundos e afogados pensamentos sobre como seria possível resolver o problema das licitações que infelicitam o nosso eufórico país.

Aspecto da Sala de Licitações, repleta de licitantes honestos

[De fato, tais pensamentos me vieram depois de outro alarme falso – pareceres técnicos de insofismável honestidade garantiram que, no caso da licitação de palitos de dente usados, qualquer preço abaixo de 100 contos por palito significaria falência dos pobres e ingênuos licitantes].

Pensei então no estratagema – em vez de tentar saber quem são os ladrões, o que tem sido feito desde que Cabral era menino, eu tentaria identificar os honestos. Mandei publicar então aviso nos jornais:

Licitação Direcionada n. 000000000001/2016
Licitantes honestos a analisar 
um edital, com os trajes típicos 
da época

Este certame será ganho por quem entregar mais queijos de minas, perfuminhos parisienses e ipods para as pessoas certas. Quê? Quer saber o objeto da licitação? Pra quê?

Meu raciocínio [brilhante, um dia alguém mais além de minha secretária Cacilda Regielena reconhecerá isso] era que, se as licitações aparentemente honestas atraem lobões, as licitações aparentemente roubadas atrairão cordeirinhos.

Sentei-me na mesa de licitações, armado de um bloco de notas para anotar os lances, um par de lápis e um celular ching-ling do camelô, e pus-me a esperar. Como os licitantes tardavam, tirei um cochilo.

Quando este velho detetive abriu os olhos, não havia mais lápis. Nem bloco de notas. Nem mesmo a vetusta mesa licitatória.


Mas antes que os pessimistas comecem sua algaravia, observo que não quiseram o celular. A Honestidade ainda existe.

domingo, 17 de janeiro de 2016

2016 01 18 - O Detetive Balsemão contra a Máfia dos Picolés

Encontrava-me eu a digerir meu saudável jantar gourmet de Cheetos e coca tamanho triplo quando atarantado telefonema de minha secretária Cacilda Regielena interrompeu a paz da minha luxuosa quitinete segundo subsolo fundos: a Máfia dos Picolés Azuis atacava novamente.

O Veterano Detetive procura o 
último exemplar do picolé azul,
 tendo todos os outros já sido
 lambidos
Já era universalmente conhecido que, a começar pela Prefeitura de Santa Rita do Jucurutuca, meu doce e amado torrão natal, todas as entidades públicas, privadas e as privadas de todo o país decidiram que finalmente o país se voltaria para professores, ambulatórios e laboratórios. Antes disso, porém, a nação deixaria na pindaíba os professores, ambulatórios e laboratórios, para comprar picolés. Os lambíveis artefatos carreariam fama mundial ao país, que lucraria horrores com os turistas que afluiriam sem nem deixar espaço aos pobres e apertados nacionais.

Efeitos do Picolé
no tataravô
do bravo Detetive
A bordo de meu DKW-Vemaguet lancei-me à caça da sub-reptícia máfia, quando vi que, no seu afã maléfico, cometeram um erro: na falta de corante, esmagaram umas pílulas azuis para os picolés de anis. A pista não foi difícil: foi só seguir a trilha de velhinhos serelepes acompanhados por jovens tatuadas a fazer fila em hotéis com nome em neon e portas cor violeta.

Finalmente encontrei a Máfia, junto com as mais honradas autoridades da minha doce Santa Rita, além de outras. Ia soar-lhes a merecida voz de prisão, quando me declararam que dessa vez o país daria prioridade à educação e à saúde. Mas antes destinariam vultosos fundos à produção massiva de tais picolés, que trariam fama mundial ao país, etc.


Desconfiado, disse que daria 300 anos de prazo para tão tonitruantes resultados aparecerem. Eles disseram que não seria tão demorado. Bastariam 299. 

domingo, 10 de janeiro de 2016

2015 01 11 - O Detetive Balsemão contra a máquina da Corrupção

Estava eu, o velho Detetive, a ruminar minhas recordações do meu antigo camarada Álvares Cabral, o Pedro, quando uma ligação interrompeu a placidez do meu DKW-Vemaguet modelo 1963. Ansioso como quem recebe uma ligação de amor da Angelina Jolie (que por sinal continuo esperando) reconheci a voz fanhenta e carrascosa de minha secretária Cacilda Regielena.

Cacilda faz lenços 
de crochê enquanto
 espera o seu príncipe.
 Na foto, o lenço 
número 797.342

Ah, Cacilda Regielena, boa menina prendada do campo, sempre em busca do verdadeiro amor – já teve trinta e nove namorados. Todos os dias a me dar telefonemas informando desabamentos da casa, perda de entes queridos, ameaças de morte e de ouvir 25 horas seguidas de forró eletrônico, diagnósticos de doenças incuráveis, incêndios na vizinhança, sem falar nas notícias ruins.

- Seu Balsa (assim me chama ela, talvez reprimindo uma paixão oculta) descobriram a máquina da corrupção aí perto do senhor.

Tomando nota do indigitado endereço, desloquei-me (em alguns trechos empurrando o velho e fiel DKW) para a insuspeita locação. Peguei-os em flagrante. Como homem atualizado que sou, usei a expressão:

O Veterano Detetive a tentar entender
 a complexa máquina da Corrupção
- Apanhei-te, cavaquinhos! Então sois vós os miseráveis sarangas, sacripantas, papalvos e aldrabões que infelicitam o país com vossa funesta máquina! Recebei agora a punição por vós merecida!

- Oh, meu caro senhor – disse um deles. E me revelou que a corrupção, ao contrário do que espirra a patuleia, é responsável por empregos, avanço tecnológico, criação de novos compostos patenteados de moléculas de aminoácidos e pelo desenvolvimento de meios eficazes para convencer um violinista clássico a se tornar fã de Luan Santana.


Estonteado pelo raciocínio tão adredemente desenvolvido, decidi voltar ao escritório para estudar a situação junto com minha fiel secretária. Estamos meditando seriamente sobre a possibilidade de entrar com embargos de declaração, para ver se entendemos alguma coisa.

domingo, 3 de janeiro de 2016

O Povo quer o Detetive Artemidoro Balsemão (o herói contra a corrupção)

- JÁ CHEGA!!!!!!

Amenóphis IV e Nefertiti VII,
avós do velho detetive
Cansado de atraso tecnológico no programa espacial de lançamentos de satélites artificiais geoestacionários, dos minúsculos incentivos no orçamento geral para síntese de compostos químicos biotecnológicos de quarta geração, dos iogurtes diet que têm gosto de mouse de computador mofado, e de pular catracas de metrô, o povo do estado, do bairro, do País, da Humanidade, e até a nobre e guerreira população da briosa municipalidade de Santa Rita do Jucurutuca gritou:

- JÁ CHEGA!!!!!

O pai de Balsemão, em profundo
meditar sobre onde raios deixou o
controle remoto
E após queimar as pestanas, miolos e até as contas velhas que deixou acumuladas na gaveta desde o inesquecível ano de 1889, esta mesma população concluiu: somente uma pessoa poderá nos salvar:

- É um pássaro, é um avião? Não! É o Detetive Artemidoro Balsemão, o herói contra a corrupção!

E a pergunta que atormenta os centros de pesquisa filosófica, os laboratórios de nanotecnologia e nutracêutica avançada, os reality-shows de culinária que só deixam os espectadores babando, e os hoteizinhos com portões cor de violeta que oferecem descontos a universitários é a seguinte:

- QUEM É ARTEMIDORO BALSEMÃO???


(este semanário aceita respostas até o domingo que vem, quando responderá esta pergunta que atormenta o Planeta Terra e também os vizinhos. A resposta que chegar mais perto ganha um sanduíche de queijo e um LP arranhado do Skank).

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

100 - O Coronel se perde nas possibilidades

Preso em um gabinete por seus soldados amotinados, esperando o resultado de seu julgamento popular, como os canhões do inimigo cada vez mais perto, o Coronel Sérgio Alexandrovitch Kovinev espera.

O meio-dia irrompe em meio a nuvens que prometem tempestade. Sentado em frente a uma escrivaninha negra, de três gavetas, sabe que nelas está seu futuro, que talvez seja nada.

Abre a primeira. Deposita-se lá uma fotografia de seus dezessete anos, uniforme da escola militar, sem namorada, vontade de agarrar o mundo.

Abre a segunda. Uma gravura de Vênus – e com ela a Ira de nunca tê-la conhecido.

Vem a Terceira. E nela não existe a pistola que esperava (um estratagema banal dos revoltosos para facilitar-lhe o fim). De fato, não há nada. Só um receio de que o Nada exista. Ou talvez nem isso.

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COM ESTA CENTÉSIMA NARRATIVA, ENCERRA-SE, NESTE BLOG, O PROJETO NARRATIVAS MULTILINEARES. GRATO A QUEM LEU.
Paulo Avelino

domingo, 30 de novembro de 2014

099 - O Maluco Belo

O Maluco Belo dizia para termos coragem. [Dizia também para termos coerência entre querer, pensar e fazer – embora coerência fosse o que não se encontrava entre suas belas palavras e roupas malamanhadas]. Um Ensaio sem título específico e sem indicação de autor, com capa vermelho-esmaecida e uma menção a Toulouse, 1914, imortalizou [palavra que ele mesmo rejeitaria] Raullón, cognominado [sem muita razão efetiva] O Maluco.

Sabe-se que há um registro [razoavelmente seguro] dele no ano 1323; que aparecia sempre pelos fins de manhã na feira em volta do Caminho do Touro; que tinha por volta de cinquenta anos [sendo que os testemunhos de que tinha A Idade das Pedras foram (não sem razão) considerados por demais poéticos; e que quando vinha as possíveis nuvens de tempestade se dissipavam [o que também tem sido posto em dúvida]. Falava [não pregava] como quem brincava com bolinhas de sabão.

As [inevitáveis] interpretações o compararam a uma Maria de sexo trocado, sempre disposta a sacrificar-se pelo mais insignificante ser; [esperáveis] semi-detratores afirmavam que sua vida consistiu numa hercúlea batalha contra um desejo que o roía, aquele da desgraça alheia.

Infensa a interpretações extremistas, a verdade pode afirmar que o Maluco Belo, pregador medieval do Sul da atual França, não se inspirava por excesso de bem ou de seu oposto, mas por um sendo de expectativa – do que vai acontecer, sendo este comum a todos os humanos. Tal explicação [óbvio] também tem seus contestadores.

sábado, 29 de novembro de 2014

098 - O ilógico relógio Kashmir

Os relógios precedem Descartes. [Seria (no entanto) exagerado dizer (como querem alguns) que o grande relógio de Kashmir precede todo o Tempo – pois o mesmo só existe desde anos 700 ou 800, segundo as menos piores estimativas]. Dele restava apenas [em 1899, quando sobre ele se falou pela última vez] uma pintura [de detalhes (quase) criminosamente explícitos e uma (esmaecida) cor verde, apesar da neve que, de maneira pouco esperável, o circundava].

Único no mundo, o relógio de Kashmir não tinha números – de fato, os períodos passados se dividiam em pequeno período, grande salto e você está depois do tempo [este último de interpretação assaz complexa].

O povo que se regulava por ele [o talvez mítico povo Kashmir] o temia mais que respeitava – de fato, o passar dos ponteiros os enchia de um terror cuja explicação desafia antropólogos. [Sendo que a melhor versão, talvez incorreta, era de que se sentiam criticados, não pelo tempo que desperdiçavam, como os ocidentais, mas pelo que aproveitavam – o que quer que isso quisesse dizer].

De fato o grande relógio [que não era (em verdade) assim tão grande] assumia o papel de um conjurador que trazia as coisas da vida, abundantemente, sem nenhuma avareza, até as desgraças – como um Édipo de peças de metal e sem nenhum esforço para evitar gregas tragédias.