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domingo, 22 de outubro de 2017

O Pior Filme Erótico

Ed Wood gravou nas três últimas semanas de 1950 [em um galpão enferrujado no subúrbio oeste de Newark] as trinta ou trinta e uma [nunca se soube ao certo] cenas de um filme licencioso [e essa qualificação pudica se deve ao próprio Ed Wood, o qual, contrariamente ao que diz a fama, era um tanto pudico].

A obra [se é que se pode chamar de obra a um filme do alegado pior cineasta do mundo] ocupou sete rolos de celuloide e somente alguns poucos sortudos [se é que se pode chamar de sortudo a quem o viu] puderam apreciá-lo antes de sumir nas estantes da Comissão pela Decência [a mesma que por décadas regeu os filmes de Hollywood e que se tornou célebre por proibir umbigos].

Influenciado por seus clássicos-ao-inverso de ficção científica [ao inverso por serem exemplos de filmes ruins] a filmagem de Ed Wood [a qual permaneceu sem nome] tinha como protagonista uma venusiana [um tanto ridiculamente] denominada de Vênus, a qual [junto com suas e seus comparsas de planeta] tinha como objetivo a conquista do Planeta Terra através da sedução carnal aos líderes e cidadãos e cidadãs proeminentes do mundo. Como uma criatura verde [que ao tirar o sutiã verde mostrava os seios verdes] poderia seduzir alguém, o filme silencia.

De qualquer forma acha-se que a verba foi cortada não por pudor, mas por insinuar que os líderes podiam ser seduzidos de forma tão reles. O que não deixou de ser um motivo político.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Antônio Frederico e Leonídia em alguma alcova no Pelourinho

Da obra duplamente mal denominada Os Amores Secretos de Leonídia somente um exemplar [em estado deplorável] se encontrou em um canto do Sanatório de Salvador em 1931. Compreensível pois se trata de manuscrito.

Duplamente mal denominada: primeiro não é de Amor que se trata, ou ao menos na acepção comum e melosa do termo. Segundo, não se trata de amores mas de um só.

Leonídia amou Antônio Frederico muito antes dele escrever o Navio Negreiro e as pessoas o chamarem um tanto lusitanamente pelo seus sobrenomes de Castro Alves. Um amor fraquinho, não consumado, do qual ela só teve a honra duvidosa de segurar o poeta nos braços enquanto ele partia do mundo.

Enlouqueceu depois, dizem que de saudades do que não aconteceu.

O [anônimo ou anônima] autor desta obra [tanto ficção como projeto de vida] se propôs a escrever o que a jovem deveria ter feito para manter a sanidade.

Começa com a fuga desta do engenho, acompanhada de uma criada, e da sua chegada ao quarto de estudante do poeta no Pelourinho.

E continua descrevendo cada uma das posições, a troca das mesmas, o motivo de cada um dos suspiros, a diferença de um milímetro no diâmetro entre os bicos da jovem, que o detalhista poeta não deixou de apreciar.

E terminava [previsivelmente] com a gravidez da moça, de um filho que daria sentido a sua vida.

Lamentavelmente [diz o autor ou autora com comoventes boas intenções] Leonídia foi uma boa moça, e morreu em um hospício.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

A mulher perfeita de Charles Baudelaire

Charles Baudelaire sonhou com uma mulher perfeita no dia em que o último casebre medieval na praçola em frente à Notre-Dame sucumbiu ao peso de uma bola de ferro. [A velha cidade sumia e a nova não o agradava]. Tomou mais dois goles de absinto, fumou um charuto de dar náuseas e [contrariamente a Vítor Hugo, que inventou uma trama sobre um corcunda na velha catedral] meteu-se a elaborar a perfeição.

Começou [de maneira não só banal como previsível] por pedaços do corpo – mas após encaixar seios e ancas na forma que criava na imaginação deixou para depois, superado por algo mais urgente.
Abandonou os lugares comuns [de que a mulher deveria ser amorosa, ou dedicada, ou saber fritar boas panquecas ou escrever tratados sobre histologia] e dedicou-se ao que o interessava – e que [não por acaso] era o que não interessava ao vulgo.

A mulher perfeita de Charles Baudelaire tinha formas razoáveis e sabia conferir hemistíquios, sabia decorados trechos de Molière e fumava de vez em quando um charuto. Vestia-se de saias plissadas e sabia despi-las com igual elegância [talvez mais ainda] mostrando-se inteira para seu amante [ou não inteira pois a vestia um delicado perfume de cânfora].


E acima de tudo a mulher perfeita de Charles Baudelaire tomava absinto em algum café de esquina com Charles Baudelaire.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A única pintura

A mais bela pintura de Cândido Portinari nunca foi intentada, e se o foi, perdeu-se há décadas.

De fato conta a história [e talvez não minta] que o mestre um dia viu [pela infinitésima-segunda vez] o mundo – e pela vez primeira não o achou injusto nem mau [a opressão capitalista, o trabalho escravo e a tragédia dos imigrantes não lhe tocaram a imaginação ou a retina].

A mão do artista de Brodósqui [mão essa exímia em segurar um preciso pincel embebido em óleo] pela primeira vez acariciou com o pincel a tela, mas não a começar em caras gretadas, marcas de varizes ou rugas à la cânion. A mão deixou-se levar [talvez por lembranças de infância ou anúncios de maiô em alguma revista] e [em lugar das linhas retas do sofrimento] passeou [talvez em delírio] por parábolas e montanhas-russas, e por três horas [dizem] Cândido Portinari ano soube as horas.

Quando [finalmente] afastou-se três passos, viu que do óleo e da tela [e pela primeira vez do óleo e da tela de Portinari] observava-o uma jovem [olhos castanhos e cabelos surpreendentemente ruivos – os cabelos de todo seu corpo]. Ela o olhava, nem oferecida e nem pudica, nua e não supreendentemente feliz.


Não se sabe o que Cândido Portinari pensou de seu primeiro e único encontro com a felicidade. Apenas que a pintura nunca fez parte dos catálogos de leilão da Galeria Bonino.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Mata Hari, minha cara

Devassidão e Indecência: a história licenciosa e imoral da célebre espiã Mata Hari – é esse o péssimo título do livro [minha caríssima Tássia] e tal livro nunca foi escrito. Se o fosse [minha leitora Tássia] ele o seria por mim.

Tu [é mais que claro] serias Mata Hari – um cobra a se enrolar no corpo em números de strip-tease para oficiais franceses, a tanga de miçangas a ser tirada em câmera lentíssima. E eu seria Jean Marcel [major, bigode louro e planos secretíssimos de guerra no bolso da galocha].

E em troca desses planos [minha espioníssima Mata Hari-Tássia] eu [em completo desafio ao patriotismo, à lealdade e ao bom senso] te deitaria em mesas de bilhar [tu a beijar o pano verde], seria teu liderado [você minha chefe, por cima de mim e de tudo]. Iríamos [juntos, minha forte Tássia] para frente na vida, o que não me impediria de [por vezes] ficar por trás, bem por trás de ti, minha cara Tássia, muito próximo, enquanto tu de olhos fechados gritarias alguma quadra de Molière de trás para diante.

E um dia [é claro] seríamos pegos [como os espiões sempre o são]. Juízes com pele de tartaruga recriminariam nosso desamor pela pátria, nossa desonra e falta de pudor, e iríamos juntos [minha inefêmera Tássia] para a masmorra ou paredão, pois já teríamos vivido a eternidade do momento.

Cinderela, nua

Um manuscrito atribuído a Borges, depois a algum imitador dele, e finalmente a um comitê de falsários homiziado na rua 49 em Manhattan afirma ser o continuador da história clássica, hoje tida como de fadas.

Segundo tal documento [de veracidade contestada mas não sem colorido e algum interesse], os pudicos irmãos Grimm [e é o próprio manuscrito que os designa como pudicos] sabiam muito bem que a história da camponesa que casa com o filho do Rei [ou seja, a história de Cinderela] não acabava com o casamento e o cavalo branco no qual o príncipe a levava para o castelo.

De fato, o tal papel descrevia com detalhes de miniaturista a primeira noite da jovem Cinderela [sendo impensável uma princesa de conto de fadas ter experiência anterior], incluindo até os decibéis dos suspiros do jovem casal, o número e a força das investidas, a sensação do atrito entre as peles nuas e até a nuance da cor dos seios da moça.

Horrorizados, embora já acostumados ao cruel realismo das histórias de camponeses, os irmãos terminaram a história logo quando ela se tornava mais interessante, segundo o manuscrito. E até essa parte foi [previsivelmente] suprimida.

sábado, 14 de outubro de 2017

Serás Cleópatra

Hoje [e talvez só hoje] serás Cleópatra. E eu [apenas pelo dia de hoje, ou então mais] serei Júlio César.

Não, não o serei [e nem mesmo Marco Antônio]: não gosto de generais romanos – na verdade nem de generais como um todo. Serei um escravo [o teu escravo]: algum Diomedes louro da Trácia ou Nicômaco amorenado da Numídia. Existirei para servi-te [minha cara Cleópatra em substituição] – e ao fazê-lo, servir-me de ti – um segredo que nós dois saberemos sem o dizer.

E não vestirei aqueles ridículos panos de filme histórico de Hollywood [ou talvez vista, sei lá, apenas para tirá-los depois]. Vou trazer-te uvas [que você comerá com as mãos por cima do rosto, em um daquelas divãs tão ridículos que duvido que os romanos de verdade os utilizassem]. Beijarei teus pés e vou te dar banho [rainhas da antiguidade não tinha vergonha dos escravos, pois, afinal, eram apenas escravos]. Vou ler Catulo ou farei Karoakê dos Beatles para te arrancar do tédio.


E depois vou te defender com minha espada [nada metafórico, é só a arma de verdade contra algum bando de bárbaros da Bitínia]. Ou talvez seja metafórico mesmo, e depois de usá-la colocar-te-ei para dormir.