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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Serei sua Ariadne

Teseu, serei sua Ariadne. E me perderei no Labirinto. Não perderei – entrarei nele, disposta e temerosa como todo Herói. Olharei para você, a porta a se distanciar e o sol da Creta ao fundo. Afastar-me-ei de você [Teseu] mas manterei o fio – o Fio seu e nosso.

E o mundo [meu carinhosíssimo Teseu] é escuro sometimes e às vezes ofusca com tanta claridade – e é neste mundo que penetrarei [destemida, feliz e lacrimosa Ariadne] a querer me afastar e a senti-lo cada vez mais perto [o fio de seda a desenrolar de minhas mãos].

O labirinto [meu pacientíssimo Teseu, e o vejo a esperar na porta] rescinde de tanta monotonia. Cada novo corredor parece com o velho, cada esquina semelha com as três últimas que acabei de cruzar. Sou monótona também, e só não sou porque não o somos. Desfio [já que estamos a falar de fios] cada um dos momentos a dois – cada cálice de vinho da Capadócia, cada pôr do sol por cima da Ágora nós dois a mirar ao longe as ondas do Mar Egeu.

E o labirinto [como todo Labirinto] terá um monstro. Monstro que cujo grande [e talvez único] poder é aquele de meter medo. Vencerei este monstro [Teseu] seu fio firme em minha mão, eu quase a sentir você puxar ao longe, para me mostrar que está sempre lá.

E amaremos [meu amantíssimo Teseu] na Porta, na praia e na montanha, sem túnicas, sandálias nem filosofia, como Bichos, Heróis ou Gente que sempre fomos.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Dentro de um Fusca

Amemos [Tássia] dentro de um Fusca. Malucos [tais] ou talvez não tanto – num fusca cabe muito, talvez até tanto amor. Antigos, anos-setenta [ou mesmo universais] afinal o Fusca não tem era.

Não tem era, mas cabe muito mais [sem duplo sentido, ou talvez com ele] em tempos clássicos. Aqueles [tristes tempos] de medalhados a dirigir tudo por atos institucionais - e também alegres [aqueles em que íamos a praias desertas] e as praias desertas quedavam a vinte minutos em marcha lenta – marcha lenta de Fusca.

Tinha um pequeno depósito lá atrás do segundo banco [lembra?] Pequeno demais para qualquer mala, mas grande demais para tua lingerie e meu jeans [aquele US Top unissex que só para provar que era unissex mesmo nós o trocaríamos de quando em vez]. Grande, mas nós o utilizaríamos para o jeans e o demais.


E as alças [querida Tássia], aquelas alças laterais de alguma borracha patenteada lá pelos anos 20. [Convite plástico para a indecência, mais que qualquer proibido clássico da literatura ou da tela]. Formato exato para enganchar teus pés, e distância milimetricamente concebida entre um e outro para contestar a veracidade do aforismo que afirma ser estreito o bom caminho. Não o era – e eu [convidado de honra] percorrê-lo-ia múltiplas vezes [facilitado pelos bancos e alças] na rua, na duna e na rua calçamentada de pedra, aquelas tranquilas ruazinhas do passado, nas quais, mais que o passado e o Fusca, interessantes éramos nós.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Pequena história de eu e você

E esta é a pequena história de Eu e Você. E nós não somos de lugar nenhum. Tampouco de nenhum tempo. Você pode ser Cleópatra. Ou eu posso ser Cleópatra. Não faz diferença pois não temos corpos definidos. Sem Tempo, o Passado e o Futuro para nós fazem tanto sentido quanto um ornitorrinco de cor púrpura.

Não temos nomes. São por completo dispensáveis, pois nem sabemos se existimos. Ou melhor, sabemos. Sem fazer disso um fetiche para desse conhecimento gerar outras consequências. Somes eu e você, frente a frente, sem onde nem quando. E não viveremos o agora pois nem mesmo o agora tem alguma relevância.

Não pensamos e existimos – se alguém pensasse e por isso existisse, ele o faria só. E somos dois. Essa é nossa maior certeza. Na verdade a única.

Somos dois, sem tempo, sem espaço, sem outros nem desejos. Ou melhor, com um desejo. Único. Queremos ser um. Se é que algo nos incomoda, é o fato de que não somos um. Há um você que não sou eu, um eu que não é você e a existência desses dois pronomes pessoais diferentes nos faz querer ser um. Portanto amamos.

Amamos, portanto existimos. Mas não amamos em sentido baboso, ligado a compromissos, reproduções e lágrimas. Amamos – encaixamos, esfregamos, gritamos e temos alguns instantes de relaxo ao final. Para começar de novo. Amamos dessa forma, não queremos conhecer outra. Aliás outra não existe.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Conversas com uma estátua

Os católicos da Espanha lá pelo final de 1936 decidiram que tinham algumas discordâncias doutrinárias com o senhor José Ortega y Gasset. E por causa disso eles providenciariam o envio [antecipado] do referido senhor ao Inferno. Pela mesma época os comunistas chegaram à mesma conclusão – apenas com o detalhe de eliminar o Inferno da situação, pois o dito cujo não existe.

José Ortega y Gasset respondeu que não era católico, não era comunista, não era nada – seu único interesse era a verdade. Não convenceu ninguém. Deixou sua coluna no jornal El Espectador e fugiu para salvar a pele.

Viu-se em Paris. E descobriu que não conhecia ninguém além das estátuas. Bateu longos papos com Rousseau e Descartes [e no diário escrevia que este é momento mais triste e improdutivo de minha vida].

Até que cansou de conversar com monumentos – ou não. Encontrou Vênus de Milo em um Café barato a três quarteirões do L´Opera. Ou melhor, não encontrou Vênus de Milo mas Marie Thérese, que estudava na Escola Normal, gostava de balé e tinha cabelo curto, como todas [e talvez como a original de Vênus de Milo, da qual ninguém conhece o penteado]. E possuía o corpo da original e a idade dele dividida por dois.

O Filósofo e a Estudante realizaram orgias – de estética, metafisica e o conceito da Beleza segundo Platão. Se elas envolveram cintas-ligas jogadas ao chão e palavras gritadas às duas da manhã ninguém sabe, e talvez nem interesse.

sábado, 13 de janeiro de 2018

A Sapucaieira de Vicente Leite, ou a presentificação de uma paisagem

Paulo Avelino


Vicente Rosal Ferreira Leite deu de presente esta pequena paisagem de 20 por 15 centímetros no dia 5 de junho de 1941. Pintou-a com tinta a óleo, sobre madeira, e a dedicou a um casal de amigos. E morreu quatro meses depois, de infecção rápida e generalizada. Exatamente quando sua carreira subia um ponto, premiado que fora com uma bolsa para estudar na Europa.

Essa Informação pode fazer ver a obra sob a ótica da melancolia. Como também nos pode fazer pensar a questão da presentificação na arte.

Vicente Leite chamou esse quadro de “Sapucaieira”. Gostava de paisagens. Gostava particularmente desta árvore da Mata Atlântica, a Lecythis pisonis, muito comum no Rio, naquele Rio dos anos 40 bem mais cheio de Mata. Outro quadro dele, exposto na Galeria Multiarte de Fortaleza em 1995 e intitulado “Sapucaieiras” nos permite localizar com razoável certeza o local da pintura: o bairro do Cosme Velho, na cidade do Rio.

Paisagens são, ao primeiro pensamento, banais. São fixas, baratas e sempre disponíveis – ao menos para quem mora perto. Se o forte da fotografia é presentificar o momento, a paisagem consiste no menos fotografável dos temas. De fato, a grande maioria das paisagens só se valida com a presença de alguém em primeiro plano – nós dois em frente ao Corcovado, tia Eliete quando visitou o Palácio de Inverno em Petersburgo – e então a paisagem se transforma, literalmente, em fundo.

E ao segundo pensamento a paisagem consiste no mais inacessível dos temas. Primeiro por uma razão prática. Agarrados ao volante, espiamos de esguelha ao espelho d´água do lago ou ao pequeno bosque de castanholeiras – com medo de um acidente que desvie nosso caminho para o hospital. E no ônibus o aperto e a preocupação nos conduzem a bem longe de especulações estéticas. Quanto à paisagem urbana, a massa de concreto enferrujando e de vidro apenas nos afunda para dentro de nós.
Há uma razão mais profunda. Não é só a pressão urbana, nossas vidas nos desconectam. Não vemos a praia pela janela enquanto ajeitamos a gravata, não percebemos o detalhe da escultura na entrada do Louvre, com medo dos batedores de carteiras e dos horários da excursão. A própria vida nos faz não ver.


A Arte presentifica – ou torna visível. Que fique claro, não tenho uma sapucaieira em meu apartamento. Os dicionários de árvores me dizem que podem chegar a trinta metros, e isso já fala por si. Tenho um pequeno pedaço de madeira plana com tinta seca por cima. O resto é o talento de um pintor há muito falecido. O que torna falsas as discussões sobre se a pintura figurativa é o real. Se é real, não é pintura. Ou, o real é a pintura.

As linhas curvas dominam a pintura de Vicente Leite. Melhor dizendo, as linhas inclinadas. De fato sua Arte perde um pouco quando os horizontais e verticais puros se multiplicam na tela, às vezes em razão do próprio assunto. Isto faz com que seus quadros onde há casas e horizontes planos diminuam um pouco sua originalidade.

Nesta “Sapucaieira” Vicente Leite é muito ele mesmo. Não só por razões geográficas – o Rio onde morava é seu tema preferido e dentro dele a paisagem serrana – mas pelo jogo de manchas de cor em linhas inclinadas.

O forte do quadro é sua parte superior – uma sobreposição em oblíquo de dois assuntos distantes entre si e aproximados pela tela. Dois assuntos: o céu e a copa em flor, cujo contraste de cores chama a atenção do espectador, mesmo à distância. A parte inferior marca menos, devido ao seu cromatismo verde menos contrastante.

A linha oblíqua da serra [a serra que domina o Rio de Janeiro] domina também a pintura. Ela se baixa para a direita, como para dar espaço ao elemento principal: o rosado da copa florida, recortado contra o azul. Fayga Ostrower dizia que um quadro se vê em linha diagonal de cima para baixo e da esquerda para a direita – e neste quadro tal noção se realiza. O olhar desliza pela linha da serra e se fixa na árvore. Demora por lá, e de lá desce pelo seu tronco e procura distinguir elementos mais próximos do chão e nele se situar: as moitas, a relva.

As pinceladas são rápidas, às vezes quase manchas. Tomadas em conjunto é que formam a cor do volume que representam. O que mostra que as conquistas do impressionismo e de Van Gogh não eram estranhas ao artista. Quanto ao ser humano, ele não está ausente – é claramente o seu olhar que delineia tudo. O ponto de vista é o de uma pessoa adulta em pé, postada a dez ou mais metros da árvore, a observar uma serra obviamente muito mais alta.

A Natureza de Vicente Leite não é a Natureza Terrível dos românticos, de um Caspar David Friedrich, por exemplo. O homem não se coloca nela como elemento estranho em busca de seu próprio sentido. Em Vicente Leite o homem vê a natureza em certo recorte, definindo seus limites e portanto criando-a.

Antes mais do que hoje, árvores da Mata Atlântica eram comuns naquela região. Mesmo das janelas dos ônibus de hoje ou dos lotações da época a visão da silhueta de uma bela serra não era um evento de provocar manchetes. Volta-se à eterna questão: por que pintar mais uma sapucaieira se há já tantas?

Há. Mas nós não as vemos. A Arte nos faz comparar, recriar, perceber – ver, enfim. Por alguns momentos o tempo para.

E aquela jovem sapucaieira lá dos anos 40 em algum pedaço de serra no Rio de Janeiro nos faz parar e ver, até hoje.



[Sapucaieira. Assinatura Canto Inferior Direito (CID). Datado no verso 5/6/1941. Óleo sobre madeira. Coleção particular]

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Não tens escapatória, Mulher-Gato

Sim, sei que escapatória não tenho. Durante toda minha carreira de crimes sempre soube que esse momento iria chegar. Você iria me perseguir [já desfeito meu esquema criminoso e capturados os meus comparsas] e eu correria e correria, e me veria afinal presa em um dos becos sem saída desta cidade cheia de becos sem saída. Só você e eu - o herói e a malfeitora, o representante da Lei contra o símbolo da Iniquidade. E posso antever a manchete no Gotham City Journal – “Cidadãos de Bem podem dormir tranquilos – Batman captura a Mulher-Gato”.

Fui vencida, Batman, e não tenho como fugir. Sei que você me ordenará encostar na parede [afinal sou uma perigosa meliante e posso ter armas escondidas] e me revistará inteira, a começar dos tornozelos e subindo pelas coxas e sem deixar nenhum centímetro de meu corpo sem minuciosa investigação. Cuidadoso, você me livrará da minha máscara [para facilitar um futuro reconhecimento] e lamentará que tal par de olhos azuis tenha escolhido o Mal e não o Bem– e eu lhe responderei que nunca tive ninguém que me levasse pelo caminho da Virtude.

Você irá tirar meu maiô preto coladíssimo [afinal ele pode conter importantes evidências] e já que estará nisso, você tirará todo o resto. E ao final estarei eu, a Mulher-Gato, na sua frente, Batman – só e frágil, inteira e à sua mercê.

Só lhe peço uma coisa: se o Robin aparecer, diga para ele ir plantar batatas, ok?

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Na Ilha

Encontrar-nos-íamos em ilha {Antônio Marlos], aquela quintessencial com que todos sonham – ondas em ritmo, palmeiras, água das fontes e abacaxis dulcíssimos só a estender a mão.

Você viria de algum naufrágio – assustado, surpreso por estar vivo, um bote cheio de provisões e o receio de nunca retornar.

E você veria a marca de meu pé na areia. E seu isolamento multiplicaria os perigos – uma canibal? Traficante? Última sobrevivente de alguma colônia de cientistas malucos que queriam detonar o planeta?

Eu deixaria seus receios proliferarem durante alguns dias e surgiria na sua frente – minha tanga de corda minúscula e meu cabelo em trança lhe fariam pedaços de gelo lhe percorrer o corpo por dentro de alto a baixo.

Eu lhe tranquilizaria [afinal você precisaria funcionar] com gestos e com uma cuia com macaxeira cozida com mousse de chocolate por cima [sou uma primitiva moderna].

Depois eu ficaria a lança no chão – você saberia quem manda, quem é a dona da ilha e quem é o intruso na terra de quem. E mandaria você replicar a posição da lança pois afinal donas e rainhas têm trono, e você seria o meu].

E eu olharia o céu [você também mas em outra posição – que logo seria trocada por uma segunda, e por uma terceira que seria uma mistura no liquidificador das duas primeiras junto com uma quarta e uma quinta].

E ao pôr-do-sol [aquele tão ansiado pôr-do-sol tropical] eu lhe traria um naco de manga e uma saladinha de peixe – afinal todos conhecem os benefícios de uma alimentação variada.