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domingo, 31 de agosto de 2014

074 - O Mais chato dos dias

Certo simpósio internacional [cuja existência tem sido (não sem razão) posta em debate] reuniu-se a discutir qual teria sido o mais aborrecido dos períodos da História. [Claro, as Revoluções e Guerras mais populares ficaram automaticamente de fora]. Definido o período, passaram ao ano. Depois ao lugar, depois ao dia da semana [no qual a terça-feira teve compreensiva e unânime votação]. Depois [e finalmente] ao momento, e ao personagem que mais o definiria.

Os debates [que consumiram tempo não desprezível] concluíram que o mais aborrecido dos dias da história mundial aconteceu em 13 de setembro de 1955, em Lisboa.

Naquele dia, António de Oliveira Salazar [incógnito] fotografou [sem grande interesse] uma ou duas chapas do cair da noite. [Alguma ventania não o atrapalhou]. O mais chato dos ditadores [da mais chata das ditaduras] passeava pelo cais a partir da Baixa. Não se via como fascista [de fato, deixara os detalhes verdes da roupa, do tempo em que bajulava Mussolini], mas como cavaleiro medieval [meio acometido pela velhice] lutando por um tipo de Cristo que ele mesmo concebia. O desejo da mulher [assim como sua irmã gêmea repulsa] pareciam deixá-lo em paz na tarde marasmenta.

Acusavam ao seu regime [de vida e de política] de reacionário. Ele [em um pensamento preguiçoso] pensou que era mais [na verdade] um receio de algo indefinível que dominava [talvez do futuro, ou não].

António bocejou – o sol caía no Tejo.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

073 - A [tormentosa] vindicação do Jaspion

Jaspion vence. História de fada do futuro [embora muitíssimo colocada no final dos anos oitenta] o herói nipônico vive em eterno meio-dia [o sol lancinante] ao qual a [longe de perfeita] fotografia do seriado dá tons [quase] esverdeados.

Jaspion [o herói; o menino] combate o Satan Goss. Este [Jaspion às avessas] reúne tudo o que o protagonista não é: jovem elegante, desempenado, filho do Senhor das Trevas, o Satan Goss tem um Objetivo [a conquista da Via-Láctea]; um Método [a revolta dos monstros]; e um Discurso [pagar o Mal com o Mal]. O [quase simplório] Jaspion não tem nada disso. Ingenuidade exponencial, sua condição de órfão de outro planeta o faz desconhecer as diferenças entre mulheres e homens [o que causa problemas quando entra em banheiros femininos]. Não odeia o Satan Goss [essa falta de ódio, de fato, tem lhe valido a acusação de ser avaro de qualquer sentimento, com exceção de certa atitude de espanto universal].

aspion tem poder. Thor dos bonecos de massa, transforma-se em super-robô com o qual invariavelmente derrota seu inimigo [o qual monotonamente volta no episódio seguinte]. Não guarda [no entanto] rancor. Sua única emoção [dizem seus fãs] parece certa onipresente expectativa - dizem os mesmos que trata-se da expectativa de um mundo melhor, embora tal interpretação possa ser [e talvez seja mesmo] pouco imparcial.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

072 - O Durão Detetive

As nuvens do meu Havana fazem rodinhas no ar. Passo muito da vida no hospital – metade bala, metade bebida. Sou eu – Sam Spade, a.k.a. Dashiell Hammett, a.k.a. Humphrey Bogart. De repente a encrenca bateu à porta. Era uma zinha loura bonita e metida a mandona...

O Falcão Maltês não começou assim – e talvez devesse. [De fato, a anti-heroína Mary Astor podia ser zinha mas não era loura (nem muito menos bonita)]. O epítome do detetive durão dos anos de crise oscilava [e ainda o faz, pois congelou no tempo] nos seus quarenta anos; nos seus filmes, a noite se eternizava; o clima pesado acabava por potencializar o preto e branco da parca iluminação; herói e vítima da de um exagerado senso de pureza, o herói das tramas noir sofria como um Cristo com certo toque de autopiedade, um indignado com molho masoquista diante da megalópole – e seus cafetões, prostitutas e barmen.

Humphrey não acreditava nas mulheres. Seria boa retórica dizer que não acreditava em nada - mas não corresponderia ao real. O patético cavaleiro das ruas possuía um sendo pequeno, porém efetivo de decência – um companheiro morre, deve-se fazer alguma coisa; algum promotor se corrompe, deve-se denunciá-lo; uma garota foge para viver com um bookmaker – avisa-se à mãe.

Dom Quixote sem o discurso medieval, recebe as mesmas pancadas que este. Tem como recompensa [no entanto, e em vez de um título de duque] um beijo fugidio de alguma garota de beleza famosa e moralidade idem.

domingo, 24 de agosto de 2014

071 - Antígona sem galochas

A brochura Antígona: chata sem galochas [atribuída falsamente a Alexandre Herculano] driblou [sabem Deus ou a Ditadura salazarista como] a censura da Polícia Interna de Defesa do Estado e foi publicada [sem indicação de autor] pelo Editorial História Lusitana [na verdade, uma casa pirata] em janeiro ou fevereiro de 1961. Mais diálogo burlesco que peça de teatro, o tal texto perora contra a personagem de Sófocles. Retrata-a [na verdade] como uma maluca.

Tão repetitivas quanto suas palavras são suas situações: a protagonista veste sempre um [monótono] manto preto; as cenas parecem sempre passar em um céu de crepúsculo eterno; fisicamente jovem, a princesa de Tebas insiste em repetir frases de lugar-comum, que parecem lhe dar idade além da velhice; uma ventania [não explicada no enredo] sempre esvoaça seu manto [que tem sido interpretada com a Ira frente à injustiça – ira esta que, segundo os críticos, parece não levar a lugar nenhum]; e uma eterna crítica ao resto de todos os seres humanos [exceto a si mesma] perpassa todo o texto [e segundo os mesmos críticos, o toma quase todo].

Como a Antígona original, o Antígona: chata... consiste em tragédia. E até aí não foram poucos os que apontaram nuances – a personagem-título parece mostrar uma ansiedade quase eufórica em se dar mal. Nisso não se afasta muito de Sófocles – sendo claro que por poucos tenha sido levada a sério a ideia de que tal pastiche constitua a tradução de um original perdido do dramaturgo grego .

sábado, 23 de agosto de 2014

070 - O Infinito pela metade

O relato escrito por alguém com o [pouco crível] nome de Lícia Djamila e publicado em alguns portais não tinha porque chamar a atenção [e de fato não chamou]. Não passa [de fato] de uma [não-hiperinteressante] descrição de uma visita a um Swingerclub, algo decadente e com um visível sabor de anos 1960.

Sua pequena notoriedade [se é que teve alguma] vem de um clip feito com parte de suas palavras lançado no Youtube [e logo retirado por violação de direitas autorais] e no qual constava [sob o fundo musical patético – o tema da Batgirl no seriado da época] a frase Ich wartete halbe Ewigkeit – gravada em fogo na parede do tal estabelecimento tanto indecente quanto decadente.

Esperei por meia Eternidade – uma frase digna de Hegel e de Goethe mas que veio de nenhum. Uma explicação pode advir do clip que acompanhava as palavras – uma jovem percorrendo as ruas da megalópole em motocicleta – franjas azuis na capa; rosto determinado de eterna adolescência [estranha Vênus da Hiper-pureza]; nuvens pesadas em ameaça nunca consumada de temporal; uma euforia que despertava nos [poucos] espectadores um desejo e repulsa igualmente fortes. Dirige a moto por um tempo indefinido – possivelmente longo. E o clip chegava ao final antes de sua jornada.

O sem-sentido da frase[assim como o do clip] junto com o nonsense de sua fonte primária geraram alguns comentários sobre a falta de sentido da vida – embora isso [talvez] seja filosofar demais sobre uma bobagem.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

069 - Hamlet, o chato

Poderia ter duas cenas a história de Hamlet [de fato, a tragédia toda poderia não durar mais que vinte linhas]: ele recebe a revelação de que o Rei matou o rei anterior, seu pai. Ele vai ao atual rei, crava-lhe uma adaga nas costelas. Algum sangue, um grito, cai o pano, aplausos. O público de volta às suas casas em cinco minutos.

Não aconteceu assim na peça de Shakespeare nem no Fingalitch escrito por Ossian, suposto primo do protagonista, de fato não uma obra mas uma sub-história dentro do Antigo Poema Épico em língua gaélica, escrito em antigos tempos pelo retromencionado Ossian e publicado apenas em 1761. [Que nem Ossian, nem Fingal (o herói do poema) e nem Fingalitch (seu sobrinho) tenham existido, e que (todos) não passassem de invenção do execrável farsante James Macpherson passa sem se dizer].

O poema de Ossian/Macpherson [que, segundo alguns e com pouca credibilidade, inspirou o bardo inglês] apenas ressalta a sesquipedal insuportabilidade do jovenzinho. Em suas cenas parece ser sempre crepúsculo, com menção a um [pouco crível] céu esverdeado, além de uma ou outra tempestade igualmente deslocada; como o outro Hamlet, uma irritante autopiedade o permeia, com afirmações repetitivas da própria pureza diante de um mundo vil, e de uma indignação que sua falta de vontade torna pouco críveis – um Buda sem serenidade.

O aristocratazinho chato de Ossian [assim como o outro mais famoso] enche o tempo [e o pobre espectador] com frases significativas. E eis a questão.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

068 - Nunca te amei, Mulher-Morcego

Nunca me gustó la Batgirl não se tratava [supreendentemente] de um seriado. [Sua reputação no Brasil não melhorou com a edição saída em Pelotas sob o (mal traduzido) título de Nunca te amei, Mulher-Morcego]. De fato, o original espanhol [de autoria anônima publicado em Barranquilla em janeiro de 1961] não veio inspirado pela série de TV [que de fato só estrearia cinco anos depois] mas o contrário: o roteiro de cinema não produzido [pois era disso que se tratava] teria inspirado os episódios que popularizaram a frase Santa Conspiração, Batman!  e outras congêneres.

A heroína do roteiro fracassado e a da popular série em muito se assemelham. A mulher disfarçada de morcego veste [em ambos] um vestido emborrachado negro com inevitáveis detalhes rosa; seu corpo quase de adolescente brilha em lutas coreografadas em ambientes claros – de fato, quando está presente parece sempre meio da tarde com o previsível sol a cume. Antígona da pancadaria [com uma quase luxúria dos knock-outs] a jovem enfrenta sozinha a bandidos tanto inventivos quanto maus.

O autor do roteiro a fez anódina – sensual às avessas. Um caminho óbvio seria fazer dela uma Mulher-gato [esta, hiperfêmea]. Não tomou esta saída. A Batgirl do roteiro vive uma expectativa [quase infantil] de um futuro que ela não controla – o que sugere que lhe perpassa [apesar da valentia] um temor do que poderia ter sido – ter sido atraente e fatal [no caso]. Trata-se [no entanto] de suposição, sujeira às idiossincrasias de quem a vê.