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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

067 - Com Tigres e Labirintos

Borges sonhava com Tigres e Labirintos [na verdade Borges não sonhava – aqueles sombrios anos 1930, uma Buenos Aires que semelhava sempre em eterna madrugada de preferência com gotas de tempestade, o tom eternamente laranja dos filmes nos cinemas da Calle Corrientes – nada o empurrava ao onírico]. O filósofo [que na verdade não era – nem comediante, nem romancista] passeava pelo mundo – no fundo para rejeitá-lo. Os labirintos [muito falados e jamais vistos] e os tigres [relegados aos zoológicos] lhe pareciam mais interessantes.

Seus personagens [colossos carentes de traços de personalidade] pareciam ter todos a indefinível idade dos quarenta anos; a crítica [embora silente] ao mundo era seu único vestígio de sentimento [além da inveja que atormentava os protagonistas da metade dos seus contos]; seu única admiração [muitas vezes reversa e marcada pela ausência] era nem tanto o Cristo como o sacrifício deste.

Para os heróis de Borges [e para seus tigres, e para seus labirintos] a única saída seria a expectativa [talvez inspirada nos sombrios becos transversais da Avenida Nove de Julho]. Isso se uma saída fosse desejável, o que [para o autor] merecia ser objeto de longo [e inconcluso] debate.

domingo, 17 de agosto de 2014

066 - Se Deus fosse uma mulher

O grande charme do Derrick é sua absoluta falta de charme – esta frase [dita por ninguém] bem define Derrick aus der Reihe, a série de TV engendrada pela Zweites Deutsches Fernsehen a partir de 1974. Apesar do ano, os casos do Delegado protagonista e de seu auxiliar Harry Klein possuem um inevitável gosto de anos 1960, visível na narrativa arrastada [meio à la nouvelle vague], no tom fosco-amarelado da fotografia, e em que as cenas parecem sempre se passar no meio da tarde, com as nuvens fracas inviabilizando quaisquer comparações entre a meteorologia e o estado de espírito dos personagens.

Stephen Derrick [Delegado] tem seus inexpressivos cinquenta anos e circula por uma Munique sem monumentos reconhecíveis, mero pano de fundo para a trama. As [poucas] garotas belas mal passam de Antígonas do dia a dia que [desgraçadamente para elas] pouco são além de alvo de tiros e pancadas. A Avareza de sensações esconde uma indignação contida, de quanto mal se pode conter em uma sociedade capaz dos homicídios que [afinal das contas] formam o cerne do programa.

Em um dos episódios [não o menos atraente] um dos suspeitos lança a frase A maior parte das mulheres não é muito interessante; esta é, e outro conjectura Se Deus fosse uma mulher. Costumeiramente o programa lança frases fortes, depois perdidas quando [ao final] o crime se solve e o interesse do espectador murcha como um balão. Deixam [no entanto] um suave tom de crítica – este, o sutilíssimo legado da série.

sábado, 16 de agosto de 2014

065 - Os três capitães, ou só um

Thomas Edward Lawrence mencionou certo William Shakespear, capitão como ele, intelectual e [porque não dizer] brilhante como ele, e que morreu precocemente em batalha. Esta passagem do início dos Sete Pilares da Sabedoria não chamou a atenção de muitos exceto de John MacKinnock O´Leary, capitão como eles, encarregado de coligir a história do Irish Constabulary, no dia 13 de maio de 1935.

Nem MacKinnock daria importância, se não soubesse pelos jornais que no momento em que lia esta nota nos arquivos da Biblioteca de Dublin, Thomas Edward partia o crânio em queda de moto.

A maior parte das pessoas veria isso como coincidência, e assim o fez MacKinnock, durante enigmáticos 99 dias. No centésimo acordou convencido de que ele, Edward e Shakespear, os três capitães, eram um só, no sentido de que o mero acaso faria com que um morresse, outro vivesse e o terceiro voltasse ao passado.

O objeto de sua pesquisa pareceu lhe dar razão. Shakespear [como Lawrence, como de certa forma o próprio MacKinnock] aspiravam a escrever um grande romance [Lawrence o fez]; sua cor era o vermelho; e apreciavam os começos de manhã de sol lancinante. Atormentava-os a hiper-generosidade e o desejo de violência do Sete Contra Tebas; tinham o terror de não deixar nenhum legado no mundo; sua cor favorita era o vermelho; e as [poucas] namoradas os acusavam de eternos adolescentes.

MacKinnock passou o resto da vida a se imaginar como seria, se fosse brilhante como seus brilhantes duplos.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

064 - Infeliz de não ter existido


O teólogo John Dominic Crossan se questiona sobre que sentido teria se perguntar Eu ficaria triste se não tivesse existido? E eu pergunto: E o Mundo?

Imagino um universo não-existente. Naturalmente, nossa imaginação não-treinada vê um espaço preto – duplamente errado pois não há o que ver, nem nada, nem ninguém para vê-lo. A dança dos astros [tão típica das imaginações sobre um começo de Mundo] não teria lugar.

Um pré-mundo [ou não-mundo] só se pode pensar por ausências. O Mundo atual se marca por excepcionalidades – um não-mundo o seria pela prevalência uniforme do banal: um meio-dia eterno; uma neblina fraca, sem mesmo a fascinação do perigo; a decepção do imaginário observador, que descobriria ser a uniformidade o pior dos labirintos.

O Universo a-existente poderia até mesmo ter um deus às avessas – uma divindade do não-ser. Indiferente como Buda – sem a serenidade deste; avaro – avarentíssimo – a ponto de não criar nada; com uma idade sem o atiramento da juventude nem a cautela da velhice.

A não-existência pressupõe a inexistência do ter e ser – ambos típicos de algo que não é o nada. Poderse-se [no entanto] imaginar [pois imaginação não ocupa espaço, não se cunha no tempo, portanto resvala na inexistência] uma só coisa que o não-universo teria: um enorme temor do que poderia ter sido.

Resenha de Livro: A Sagração da Primavera, de Modris Eksteins

As bases culturais do Armagedon

EKSTEINS, Modris. A Sagração da Primavera: a Grande Guerra e o nascimento da Era Moderna . Rio de Janeiro: Rocco, 1991. 480p.

Um balé estreia em certo teatro de Paris; um grupo de jovens corre em direção a pedaços de chumbo que voam - e são mortos. Em sua obra de estreia o professor de história letão-canadense Modris Eksteins procura interpretar a Primeira Guerra Mundial evitando as tradicionais perorações sobre batalhas e generais. Intentou o ângulo da História Cultural. No momento em que a Guerra completa cem anos de início, vale uma revisão do seu ponto de vista.

A época do conflito trouxe não só ela mas também a vanguarda cultural. Para o autor esses fatos não são só contemporâneos mas interligados. Como momento simbólico escolheu a Sagração da Primavera, balé que causou furor cerca de um ano antes da catástrofe. Obra vanguardista, buscava o escândalo - fugia das convenções de graciosidade do balé clássico e tratava de tema considerado até então pouco estético: o assassinato de uma jovem, sacrificada para que a primavera pudesse florescer. Para o autor a ligação é clara - o sacrifício de uma jovem - o sacrifício de milhões de jovens em ataques para ganhar metros na guerra.

Até então pouco estético. Eksteins afirma que o Mundo do Século XX preconizou a estetização da vida - inclusive do que em princípio causava repulsa, como a morte e os conflitos armados. Essa nova visão da vida - e do seu contrário - formou uma base de mentalidade imprescindível para o massacre aparentemente sem fim.

Estetizado como seu tema, o livro se divide em Atos. O primeiro se refere à mentalidade cultural e seu papel nos inícios do conflito. O ponto alto consiste na muito pesquisada descrição do que aconteceu na cidade de Berlim na última semana de julho e na primeira de agosto de 1914, um contexto que geralmente é ignorado pela torrente de livros que trata das declarações de guerra. Muitas obras descrevem à exaustão um ou outro telegrama do Kaiser Guilherme ou do Chanceler Bethmann-Hollweg. O que eles não informam é que pelas janelas esses homens podiam escutar urros da multidão e bandas de música marciais clamando por guerra. Isso o autor faz de forma segura.

Um homem solitário chega em seu avião - no Terceiro Ato o livro salta nove anos e quase literalmente aterrissa junto com Charles Lindbergh no aeroporto de Le Bourget em Paris em 1927. Esta parte trata das consequências da guerra - que para o autor ultrapassaram em muito o plano material. O aviador foi paparicado não só por ser um herói, mas principalmente por ser um herói solitário. O homem só, individualizado, quase desconectado. Esta, talvez, a maior herança do conflito.

Como todo tema muito explorado a Primeira Guerra Mundial deixa a sensação que de alguma forma o principal ainda está por se dizer. Pode-se, e talvez deva-se, discutir se a influência de fatores culturais não é superdimensionada pelo autor. Mas o livro estabelece um ponto de vista surpreendente e produz momentos deliciosos de leitura - estes, talvez o maior galardão de uma obra. 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

063 - Monstruosos Números

Nicômaco de Gerasa sonhou com monstros [em madrugada na romântica cidade de Petra, no nem tão romântico ano 100 d.C.]. Era então um sábio idoso, vestia negro, e uma enorme tristeza das mazelas do mundo o atormentava [e delas procurava escapatória pelas artes algébricas]. De história de vida semelhante a uma Peça Trágica, vivia com simplicidade e destemor, e Tirésias, o sábio cego, ocupava o troféu de seu ídolo.

Contestam a versão. Não sonhou, pensou. Não foram monstros, mas números. Tinha seus quarenta anos [caçava as rameiras], um estúpido medo do futuro o atormentava e preferia Antígona porque desejava a atriz que a vira representar. Sua vida parecia mais um conto de fadas – com ele como um dos passantes que não são nem princesas nem bruxas.

Apesar [ou por causa] disso, pensou [numa tarde de nuvens fracas] em números que, ao contrário de todos, nada tinham de harmonia. Não divisíveis por quaisquer outros, sem harmonia, sem virtú. Os setes, os onzes. Sem partes simétricas, sem metades, sem terços que pudessem se harmonizar em fachadas de templos. Nicômaco [o matemático] pensou nesses números, horrorizou-se deles [pensou em elefantes de três trombas ou tigres de quinze mandíbulas] e teve quase inveja de tais números, que [não sem certo orgulho] desfilam impávidos sua feiura.

Dizem que dedicou sua velhice a se tornar o mais feio possível e assim conquistar a mesma independência dos tais números. Esse versão [é claro] é quase tola de tão inverossímil.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

062 - Cidade, o poeta te busca

Charles-Pierre Baudelaire buscava a fêmea ideal [na verdade (dizem os chatos de sempre) não buscava coisa alguma- nem mesmo o ennui]. O poeta da Paris semidestruída [apesar de viver lá pela segunda metade dos 1850] parecia viver antes do tempo: os detalhes rosa do colete misturados a uma cabeça erguida em orgulho, como Apolo, pareciam lembrar que vivia [como o mundo] em estranha infância sem lençóis azuis.

O dândi [que em verdade não era] procurava banalidades; hora favorita – o meio da tarde; tempo predileto – as nuvens pesadas. Contemplava a Velha Paris que não é mais - e as cidades que mudam mais rápido que o coração dos homens e [diante daquelas pessoas que picaretavam o antigo] se submergia de discreto desejo de desgraça alheia.

Pluvioso, irritado contra a cidade inteira, o bardo [apesar disso] se euforizava [contra] as demolições do Barão Haussmann. Na sua busca, topava com os desgraçados deste mundo, como um gato sobre o telhado procurando uma liteira e agitando seu corpo magro e sarnento – ou com os desgraçados do outro – a alma de um velho poeta errando na goteira com a triste voz de um fantasma friorento.

Conjecturam [sem base nenhuma] que o Cisne em frente ao Louvre era na verdade o coração do poeta. E o poeta [como Paris] mudou, mas na melancolia nada: nem blocos, nem velhos bairros, nem andaimes.

O poeta procurava a cidade. E [dizem talvez com excessivo sendo poético] continua a.