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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Fomos tão felizes em Berlim

Paulo Avelino

Fomos tão felizes em Berlim
E parecia que a Keithstrasse dançava sob nosso pés
[uma rua sem importância, na qual Heinrich Heine nunca passou
- mas a Heinrich não lhe agradavam as cidades
E em Berlim não há ruas sem importância].

Passeávamos  pela Praça Potsdam, Under den Linden, Wittenbergplatz
Os nomes sonoros e cidade vazia [Berlim é sempre vazia –
onde estão os três milhões de habitantes?].
O vazio se enchia de nós
Eu sem nenhuma vontade de ler Kant
Tu com jeito de eterno sorvete de morango.

Bertold Brecht cruzou conosco duas vezes [juro]
Em alguma esquina perto da Rua Frederico
E Goethe [o cavalheiro de sempre]
Fez sinal por nós para o 165 parar
O ônibus 165 que nos salvou quando gelávamos no Monumento ao Soldado].

Na Torre da Vitória não subimos
E na Brandenburger Tor não vimos
Ninguém a não ser nós mesmos
Um ao outro, e o espectro de algum maestro ou metafísico
A passar ao nosso lado
[Beethoven ou Schiller, quem se importa?].

Fomos tão felizes em Berlim
E parecia que a U-Bahn tinha sido feita especificamente para nós
E [esparramados no gramado na Praça da Catedral]
O Altesmuseum nos sorria.

 Não era Berlim – éramos nós.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Onde quedou o nosso Bem

O Mundo era cinza e florido ao mesmo. Cinza: havia os Militares; os Três Coronéis [que no Ceará determinavam vidas, destinos, mapas astrais e mais que isso, com seus bilhetinhos diziam quem ia e quem não ia ter emprego no Estado – Concurso Público? Que ser isso, pálida?]; Juízes com total independência para decidirem sobre brigas de gatos entre vizinhos; Disse me disse sobre sumiços de gente inconveniente; Subserviência em relação a gringos, for sure.

Florido: Anistia, Liberdade, Músicas quase ininteligíveis de códigos contestatórios, Diretas já – o Povo quer votar, Constituição, Partido de Oposição, esses babados – que nos levariam a algo. A ser o que éramos e por enquanto o cinza tingia de sua óbvia cor.

Trinta nos depois de volta estamos. Ao que éramos não – nunca há voltas. O Cinza se foi – ou não. Pelo menos o que conhecíamos. Falam em Diretas Já – as mesmas que vi na Rua Senador Vergueiro no Rio. Só que era 1984.

Onde tudo deu errado? Onde nosso bonde descarrilhou [embora não existam mais bondes pois o transporte privado tem prioridade]? Quando alguém errou o endereço do Doce País que encomendamos [ou alguém levou algum para esquecer de enviá-lo?]

O Mundo era melhor – e não se trata de saudades senis. Era melhor pois mais simples – havia o Mal e o Bem. E o Bem venceu.

Sabemos hoje que o Bem tem muitas nuances – e algumas delas dão muito trabalho para a Polícia e uma meia dúzia de Procuradores.

terça-feira, 6 de junho de 2017

A Dignidade – aonde foi ela

Ernesto Geisel olhos azuis e cabeleira branca dizia boa noite para a lente da câmera e na rua República do Líbano em uma Fortaleza muito distante eu recebia a saudação como para mim. Pai, mãe, irmãs – todos dormiam e eu ficava a assistir seus discursos no canal Dez. Foi o primeiro Presidente do qual lembro claramente o rosto. O General falava firme, mas de vez em quando com um perceptível sorriso.

Foi ele quem me trouxe a impressão – que se corporifica bem longe, nas fotos do Monte Rushmore [aquela montanha na pedra na qual se esculpiram as efígies de Washington, Jefferson e Lincoln]. A de um Presidente como um grande Pai. Sólido, Digno, Sério, Confiável. Até um pouco distante. Alguém diante de quem se tem um sentimento de reverência, e ao mesmo confiança.

O Tempo e muitos outros presidentes passaram e leituras posteriores me mostraram que nem mesmo o General Geisel da vida tinha muita congruência com o Presidente Geisel dos pronunciamentos de fim de noite. Mas ficou a imagem.

A qual insiste em bater de frente com notícias de jornal, imagens de TV e notas de internet: os Pais de Todos não são gente com a gente – são certo tipo de gente: têm amigos com contas bancárias questionáveis, ouvem tramoias sem erguer a sobrancelha e se pelam de medo de um ou outro juiz.

E eu me torno de novo menino de 14 anos, a pensar que no mundo pontificavam adultos sóbrios, às vezes até duros, porém dignos.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A Pouco Sustentável Esperteza dos Políticos

Nunca tive mandato de deputado, senador ou prefeito, nem nada do ramo. Como a grande maioria. E assim como ela, sempre tive um espanto quase inveja daqueles que os têm. Os políticos são gente comum – isso não deixa de espantar quem deles se aproxima. Não particularmente cultos, nem belos, e a maior parte não sabe nem mesmo ser muito convincente no discurso. O Vulgo do qual faço parte então medita no que eles têm que justificaria sua posição de superioridade.

Resposta: a esperteza. Políticos são espertos. Não são bobos. E tome um gordo anedotário sempre a apresentar o político matreiro, a dar nós em pingos d´água.

Vemos agora políticos importantíssimos a se liquefazerem de tanto medo só com a possibilidade de se defrontar com um juiz de primeiro grau. Ou agarrarem-se desesperadamente a cargos, apenas porque estes cargos lhe dariam a prerrogativa de retardar seus julgamentos.

Quantos de nós já formos chamados a audiências de juízes – experiência nada agradável, mas nós a enfrentamos sozinhos como adultos. Esses homens e mulheres poderosos [no entanto] procuram a proteção de aliados – como crianças que temem enfrentar o escuro sem os pais.

Talvez a esperteza, e o sangue frio do político matreiro, fossem advindos de que eles sabiam que o jogo já estava viesado em favor deles. É fácil ser confiante quando se sabe que está tudo articulado para ganhar.

E o poder dos políticos venha mais do acaso do que de alguma suposta qualidade – mesmo a chamada esperteza.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

O Coração sem controle

Amália reza ajoelhada na Igreja das Mercês. Reza: Faça com que eu goste do Dr. Ricardo. Faça-me gostar da pessoa certa.

Amália tem vinte e oito anos. O Dr. Ricardo tem quarenta e nove e se chama Ricardo Ribeiro do Espírito Santo Silva. Quem conheceu Portugal até poucos anos atrás lembra-se de ter visto as fachadas verdes do BES – o Banco Espírito Santo – em não poucas esquinas. O Banco era da família dele. Desnecessário mais falar sobre sua ótima situação financeira.

Amália canta desgraças de amor e simplicidade da vida do campo e na cidade lusitana, Minhos e Alfamas; in a word, canta fados. E não só: Amália Rodrigues mantém sólido o título de maior fadista de sempre. Não era pobre – já cumulava discos e paradas musicais não só na velha pátria como no Brasil e alhures. Ao contrário dele, nascera sem folga monetária.

A romancista Sônia Louro coloca esta cena tanto improvável como romântica na nonagésima página do seu Amália, a biografia romanceada da fadista. Quase como de praxe, a família da cantora tentou bloquear a exibição do filme Amália (2009), alegando que a relação entre a artista e o banqueiro não era bem assim.


Algo que sem ele metade dos romances do século XIX não sairia nem das prensas nem das canetas, desde Ana Karênina até as Memórias Póstumas passando por Eugênia Grandet: o aforismo Ninguém controla o coração. Amália controla sua preciosíssima garganta mas não seu órgão pulsante ao peito. Daí o drama. Dramalhão, talvez. Nem por isso menos importante para quem passa por ele. Até cantoras famosas a quererem se apaixonar por banqueiros.

domingo, 2 de abril de 2017

Uma Revolução Por Acaso

Raios de Luz em uma Caixa Escura – Considerações sobre a Filosofia de John Locke


John Locke nunca utilizou a expressão latina tabula rasa. Malgrado isso, essa quedou como a parte mais popular de sua obra filosófica. Grupos ativistas pregam que ninguém nasce mulher, homem, heterossexual ou homo. Mal sabem – e geralmente não sabem – que repetem uma ideia deste circunspecto cavalheiro inglês setecentista.

Revolução quase que por acaso, a noção de tabula rasa assevera que o ser humano nasce sem nenhum conhecimento. Locke precisava estabelecer isso antes de adentrar no que realmente lhe interessava, a teoria do conhecimento, ou mais especificamente as fontes do mesmo.

Portanto desenvolve a ideia da inexistência das ideias inatas em parte introdutória de seu Essay on Human Understanding, o Ensaio acerca do Entendimento Humano. Parte introdutória, pois o principal era o conceito de que o conhecimento vem de duas fontes, a sensação e a reflexão. Mas para isso tinha de derrubar a noção de que a pessoa já nasce com algum conhecimento.

Locke não tinha nenhum compromisso com o pós-modernismo do século XXI. Malgrado isso talvez seja o autor mais utilizado por ele.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Sobre o vestido de Aline Riscado, e sobre a Liberdade em Relacionamentos

Uma jovem chamada Aline Riscado postou fotos de um vestido bem ousado, na Internet.

Outras jovens resolveram enviar mensagens a supostos namorados dizendo que decidiram usar vestido parecido. Alguns namorados gostaram, outros não.

A avalanche de comentários bem pouco iluminados me fez escrever isso:

Bem, vamos lá.

1º) Antropologicamente, em nossa cultura, o que é um relacionamento de casal. Um relacionamento, em nossa cultura, implica perda de liberdade.

Não caia para trás. É isso mesmo. Se você entrou em um relacionamento, tornou-se menos livre.
Você, casado, não pode decidir fazer um doutorado na China sem combinar com sua esposa. Você, noivo, não pode resolver levar sua velha ex-namorada para jantar sem antes pedir permissão (!) a sua noiva.

Você perdeu parte de sua liberdade. Em compensação, você ganhou algo – companheirismo, cumplicidade, sexo...

Vale a pena? Continue com o relacionamento. Não vale? Termine. Mas há uma escolha a ser feita – com ganhos e perdas.

2º) Há um dogma feminista – vestimentas não passam mensagens sexuais.

Esse dogma não resiste a poucas linhas de análise. Vestimentas passam mensagens.

No meu trabalho, os homens trabalham de camisa de manga curta. Quando aparece alguém de paletó e gravata, sempre se pergunta – onde vai ser a reunião?

Pois o paletó indica formalidade, o que acontece quando há reuniões com autoridades de outras empresas.

Ou seja, o paletó passa uma mensagem – de seriedade, de negociação – significa: “eu dou valor à sua empresa, tanto que me vesti formalmente para falar com vocês”.

Alguma moça vai para um velório com um vestido vermelho curto?

Não. Se ela tem o mínimo traquejo social, ela vai com cores sóbrias e vestido discreto. Isso passa uma mensagem de respeito à família enlutada: “eu respeito a dor de vocês”.

Está portanto desmontado o dogma feminista: roupas passam mensagens, sim.

3º) A roupa em questão passa uma mensagem sexual. A prova disso é que foi vestida por uma moça que precisa aparecer na mídia, e por sua beleza (não estou julgando isso – mas é verdade).

Juntemos agora os dois pontos acima: há um casal. Há um compromisso. Esse compromisso, na nossa cultura, geralmente inclui algum tipo de exclusividade sexual. Mesmo os adolescentes que só se beijam, ao namorarem, param de beijar outros.

Essa roupa passa uma mensagem sexual, e a moça está dentro de um casal, que sempre inclui algum tipo de exclusividade sexual.

Conclusão: a moça, para usar uma roupa dessas, tem de buscar sim a concordância de seu namorado ou companheiro.

Do mesmo modo ele, ao chamar uma velha namorada para jantar, deve buscar sim a concordância de sua namorada.

Alguém não quer perder nada de sua liberdade? A sua liberdade é mais importante que o relacionamento?

A solução é simples: é só abrir mão do relacionamento.